A expansão do mercado ilegal de cigarros no Brasil tem levado ao fechamento de dezenas de fábricas clandestinas nos últimos anos. Estas unidades, muitas vezes operando sob a aparência de falsificar marcas estrangeiras, especialmente paraguaias, têm sido desmanteladas em operações conjuntas de órgãos de fiscalização e segurança. A estratégia criminosa de instalar produção no território nacional visa contornar barreiras logísticas, tributárias e reduzir o risco de apreensões em rodovias, agravando um cenário de sonegação fiscal e exploração de mão de obra.
A produção e distribuição de cigarros oriundos do Paraguai, mesmo após uma longa jornada até o consumidor brasileiro, mantêm um custo significativamente inferior aos produtos legais, impulsionando a demanda. Essa discrepância de preço é fortemente influenciada pela carga tributária, que no país vizinho gira em torno de 18%, contrastando com os índices que podem chegar a 90% em alguns estados brasileiros.
A atração por este mercado ilícito se intensificou com a criação de fábricas ilegais dentro do próprio Brasil. Essas unidades passaram a falsificar marcas paraguaias já conhecidas pelo público, utilizando mão de obra frequentemente em condições análogas à escravidão, na maioria das vezes composta por trabalhadores estrangeiros, principalmente paraguaios.
Essa mudança na atuação do crime organizado, de focar apenas no contrabando para também estabelecer produção local, contribui para uma perda estimada em mais de R$ 7 bilhões anuais em impostos sonegados, conforme projeções. A complexidade do esquema envolve desde a aquisição de maquinário, muitas vezes sucateado e disfarçado como peças de gráfica, até a utilização de fintechs e o mercado financeiro para lavagem de dinheiro, um fenômeno que se estende por diversos países da América Latina.
A pesquisa realizada pelo Ipec, sob encomenda do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), aponta que o mercado ilegal de cigarros representa 32% do consumo total no país. Desde 2012, foram fechadas 81 unidades fabris em 13 estados. Apenas entre 2022 e maio de 2024, 41 fábricas foram desarticuladas, evidenciando a persistência e a escalada dessa atividade criminosa.
Concentração Regional e Condições de Exploração
As operações de fiscalização têm revelado uma concentração significativa de fábricas clandestinas nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. O Sudeste lidera com 55 unidades, seguido pelo Sul com 13. São Paulo, em particular, aparece como epicentro dessa atividade, com 28 fábricas identificadas em diversas cidades. O Nordeste registra 10, o Centro-Oeste 2 e o Norte 1.
As investigações, como a operação “Chrysós” em Ourinhos (SP) em julho do ano passado, desbarataram redes criminosas que exploravam trabalhadores paraguaios em condições degradantes. Na ocasião, 14 trabalhadores foram encontrados em uma fábrica clandestina, submetidos a jornadas exaustivas, alojamentos insalubres e alimentação precária, caracterizando trabalho análogo à escravidão. Esses indivíduos eram trazidos ao Brasil sob contratos firmados no Paraguai e cruzavam a fronteira, sendo subsequentemente submetidos a condições desumanas de trabalho.
A capacidade produtiva de tais unidades é alarmante. Estima-se que a fábrica desmantelada em Ourinhos pudesse produzir cerca de 60 mil maços de cigarros diariamente. A exploração da mão de obra estrangeira, muitas vezes atraída por promessas de trabalho, é um componente central dessa estrutura ilegal, que se beneficia da vulnerabilidade e da falta de documentação ou conhecimento de seus direitos por parte dos trabalhadores.
O desmantelamento dessas fábricas é um passo crucial no combate à organização criminosa, que lucra com a produção e venda de cigarros sem o recolhimento de impostos e com a exploração de seres humanos. A apreensão de matérias-primas, maquinário e produtos acabados representa um duro golpe financeiro para essas organizações.
A inteligência e a integração entre os diferentes órgãos de fiscalização são fundamentais para reprimir essa atividade. A Receita Federal, por exemplo, tem registrado uma redução nas apreensões de cigarros paraguaios em Foz do Iguaçu. Essa diminuição pode ser interpretada como um reflexo da mudança de estratégia dos contrabandistas, que agora priorizam a produção interna, e também pela migração para outros produtos de alto valor agregado e menor volume, como canetas emagrecedoras.
Embora as apreensões de maços tenham diminuído em comparação com picos anteriores, o volume retido em 2023 ainda representa um prejuízo considerável para os criminosos. Uma carreta apreendida, transportando cerca de 500 mil maços, pode significar um prejuízo de mais de R$ 3 milhões para os contrabandistas. O auditor fiscal da Receita, Cláudio Roberto Caetano Marques, destaca essa mudança no modus operandi, onde produtos menores e de maior valor agregado se tornam alternativas mais atrativas do que o transporte de grandes volumes de cigarros, que exige logística complexa e maior envolvimento de pessoas.
Impacto Socioeconômico e Combate à Ilegalidade
A persistência do mercado ilegal de cigarros acarreta graves consequências socioeconômicas para o país. Além da expressiva sonegação fiscal, que priva o setor público de recursos essenciais para investimentos em saúde, educação e segurança, a atividade fomenta a expansão do crime organizado e a exploração laboral. O barateamento dos produtos ilegais também pode desincentivar o consumo de alternativas legais e tributadas, impactando a indústria legítima.
O combate efetivo a esse fenômeno exige uma abordagem multifacetada e contínua. A repressão policial e fiscal, o desmantelamento de fábricas clandestinas e a apreensão de cargas ilegais são medidas indispensáveis. No entanto, é igualmente crucial atuar na inteligência financeira para rastrear e bloquear os fluxos de dinheiro ilícito gerados pela venda de cigarros falsificados e contrabandeados.
A colaboração internacional é outro pilar fundamental. A troca de informações e a cooperação entre os países da América do Sul são essenciais para desarticular as redes criminosas transnacionais que operam nesse setor. A harmonização de políticas e a intensificação das ações conjuntas em fronteiras podem criar barreiras mais eficazes contra o contrabando e a produção ilegal.
A conscientização da sociedade sobre os malefícios do consumo de cigarros ilegais, que muitas vezes não passam por qualquer controle de qualidade e podem conter substâncias ainda mais nocivas à saúde, também desempenha um papel importante. Informar o consumidor sobre os riscos e sobre a origem legal e segura dos produtos pode contribuir para a redução da demanda por cigarros de procedência duvidosa.
A luta contra o mercado ilegal de cigarros é, portanto, uma batalha constante que envolve não apenas a esfera policial e fiscal, mas também a conscientização social e a cooperação internacional. A sustentabilidade e a segurança do mercado de tabaco dependem da erradicação dessas práticas criminosas que prejudicam o país em múltiplas frentes.





