Casal paranaense relata desafios e superações ao conviver com a poliomielite

O Brasil celebra mais de três décadas sem registrar casos de poliomielite, uma vitória significativa no combate a uma doença que causou paralisia e sequelas permanentes em milhares de brasileiros. No entanto, a erradicação do vírus no território nacional não anula a ameaça de seu retorno, especialmente diante da queda nas taxas de cobertura vacinal. A situação atual evidencia a persistência de desafios na saúde pública e a importância da vigilância contínua.

Milhares de brasileiros ainda convivem com as marcas deixadas pela doença, principalmente a Paralisia Flácida Aguda (PFA), que afeta a mobilidade dos membros inferiores. Esses indivíduos enfrentam diariamente a realidade de viver com as sequelas da poliomielite, adaptando suas vidas a limitações físicas que impactam desde a juventude até a maturidade.

A experiência de vida de Célia Henrique e Luiz Fernando Zeni, diagnosticados com a doença em seus primeiros meses de vida, ilustra a profundidade do impacto da pólio e os novos desafios que surgem com o envelhecimento e as complicações tardias.

O Legado da Poliomielite: Sequellas e a Luta Contínua

Luiz Fernando, hoje com 69 anos, foi diagnosticado com poliomielite em um período em que a vacina ainda não estava amplamente disponível no Brasil. A doença, que na época causava pânico e mortes, acometeu sua família, ceifando a vida de uma prima antes mesmo de chegar a ele.

Sua mãe, Dona Maria, buscou tratamento em São Paulo, no Hospital das Clínicas, onde o diagnóstico foi confirmado. A poliomielite, na infância de Luiz, resultou em severas sequelas nos membros inferiores, exigindo mais de 20 cirurgias e extensiva fisioterapia para recuperar parcialmente a força dos braços.

No caso de Célia, que tem 54 anos, a vacina já existia, mas o acesso no interior do Paraná, onde nasceu, era limitado. Sintomas como febre alta evoluíram rapidamente para a perda de movimentos, também a partir da cintura para baixo. Após tratamento em São Paulo e mudança para Curitiba, Célia também foi submetida a mais de dez cirurgias ortopédicas para corrigir as deformidades.

A trajetória de ambos, marcada pela perda de mobilidade, ressalta a importância de políticas públicas de saúde que garantam o acesso universal à vacinação e a reabilitação.

A Síndrome Pós-Poliomielite (SPP) é uma condição neurológica que afeta pessoas que já tiveram a doença, anos após a infecção inicial. Ela se manifesta através de fraqueza muscular progressiva, fadiga e dor, levando à perda de funções que haviam sido previamente recuperadas. Luiz Fernando descreve essa fase como uma “desmontagem”, onde a força e os movimentos conquistados ao longo da vida começam a retroceder.

Essa síndrome representa um novo capítulo de desafios para os sobreviventes da poliomielite, exigindo acompanhamento médico especializado e adaptações contínuas em suas rotinas e em suas residências. A luta pela independência e qualidade de vida se torna ainda mais complexa diante da progressão dos sintomas.

A Importância da Prevenção e a Vulnerabilidade da Cobertura Vacinal

Apesar da erradicação comprovada da poliomielite no Brasil há mais de 30 anos, a queda nas coberturas vacinais tem sido um motivo de grande preocupação para as autoridades de saúde. A meta estabelecida pelo Ministério da Saúde é de 95% de vacinação, mas, nos últimos anos, essa taxa tem ficado abaixo de 85% em diversas regiões do país.

Essa diminuição na proteção coletiva aumenta o risco de reintrodução do poliovírus, o que poderia reverter anos de progresso e colocar em risco uma nova geração de crianças. A vacinação contra a poliomielite é a única ferramenta eficaz de prevenção e sua manutenção em altos níveis é fundamental para a segurança sanitária.

Luiz Fernando expressa sua incompreensão diante da recusa à vacinação, classificando-a como um ato que prejudica não apenas o indivíduo, mas toda a sociedade. Ele reforça que a decisão de não vacinar uma criança vai além da autonomia individual, configurando-se como uma ameaça à saúde pública coletiva.

O casal também destaca a importância da acessibilidade nas cidades. A falta de infraestrutura adequada para pessoas com deficiência, como rampas, calçadas acessíveis e transporte público adaptado, dificulta o direito básico de ir e vir, impactando a autonomia e a participação social.

A vivência diária com as limitações impostas pela poliomielite e pela falta de acessibilidade urbana torna o testemunho de Célia e Luiz Fernando ainda mais contundente. Eles ressaltam que a doença atua como uma “ladra do tempo”, subtraindo oportunidades e momentos preciosos devido às dificuldades físicas, à falta de preparo urbano e ao preconceito.

Apesar dos desafios impostos pela doença e pelas barreiras sociais, Célia e Luiz Fernando construíram uma vida a dois, com 13 anos de casamento e quase 30 anos juntos. Eles compartilham que o segredo de sua união reside na resiliência, no amor mútuo e na compreensão das dificuldades enfrentadas por ambos, reconhecendo que a união de pessoas com deficiência requer uma base sólida de afeto para superar os obstáculos.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *