A arquitetura histórica de Curitiba revela narrativas sobre o desenvolvimento urbano e a identidade cultural da cidade. Edificações emblemáticas, como a Casa Romário Martins, no Largo da Ordem, e o Edifício Moreira Garcez, no centro, são testemunhos da evolução arquitetônica e da vida social curitibana ao longo dos séculos. Estes imóveis, cada um com sua trajetória singular, oferecem um vislumbre do passado, servindo como espaços de memória e aprendizado para as gerações presentes.
A Casa Romário Martins, reconhecida como a mais antiga construção em alvenaria da cidade, ergue-se no Largo Coronel Enéas, 30. Sua edificação, estimada no início do século XVIII, antecede a fundação oficial de Curitiba em 1693. Inicialmente uma residência, o imóvel presenciou transformações, abrigando armazéns e até mesmo um açougue, adaptando-se aos ciclos econômicos da região.
No final do século XIX, o Armazém Paiva operou em suas dependências. Posteriormente, em 1902, a escritura revela Guilherme Etzel como proprietário, que ali estabeleceu um próspero armazém de secos e molhados. A localização privilegiada, próxima ao histórico Bebedouro do Largo da Ordem, impulsionou o comércio local.
Nas décadas seguintes, o espaço continuou a evoluir, tornando-se o Armazém São Roque e, posteriormente, um açougue com peixaria anexa. Essa diversidade de usos reflete a dinâmica social e comercial do centro histórico.
Um marco crucial ocorreu nos anos 1970, quando a casa foi tombada pelo Estado e incorporada ao patrimônio municipal. Iniciou-se, então, um abrangente projeto de restauração, que devolveu ao imóvel grande parte de sua fisionomia original, contrastando com o desgaste do tempo e do uso comercial intensivo.
A reinauguração em 1973 marcou não apenas a recuperação física, mas também a redefinição de seu propósito. A Casa Romário Martins passou a funcionar como um centro cultural, prestando homenagem a Alfredo Romário Martins, renomado historiador paranaense e um dos idealizadores do Paranismo, movimento cultural que visava fortalecer o sentimento de pertencimento ao estado.
Legado Arquitetônico e Memória Urbana
Atualmente, a Casa Romário Martins cumpre seu papel na preservação e divulgação da história curitibana. Por meio de exposições e atividades educativas, o espaço convida o público a mergulhar no passado da cidade. Seu funcionamento se estende de terça a sexta-feira, com horários que facilitam o acesso, e aos sábados, domingos e feriados, mantendo as portas abertas para o público.
O Largo da Ordem, cenário de importantes edificações históricas, também abriga a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Chagas. Construída em 1737, a igreja detém o título de edificação mais antiga de Curitiba e representa um valioso exemplar da arquitetura colonial portuguesa na região central.
A igreja, que já desmoronou e foi reconstruída, passou por uma reforma significativa em celebração aos 330 anos do município. O investimento, de R$ 11,67 milhões, modernizou o Museu de Arte Sacra e restaurou o templo, resgatando detalhes da época imperial, inclusive o forro de estuque, antes oculto.
A proximidade temporal com a visita do Imperador Dom Pedro II em Curitiba foi um fator determinante para a reconstrução do templo, que até hoje permite aos visitantes admirar a mesma arquitetura que encantou a realeza.
Em outra vertente da evolução urbana, o Edifício Moreira Garcez, localizado na confluência da Avenida Luiz Xavier com a Rua Voluntários da Pátria, representa um marco na verticalização de Curitiba. Projetado para ser um hotel de luxo, o edifício, com seus oito andares, foi concebido durante a gestão do prefeito e engenheiro João Cid Moreira Garcez, há cerca de um século.
Inspirado no estilo Art Déco, o projeto, assinado pelo engenheiro Eduardo Fernando Chavez, refletia as tendências arquitetônicas globais da época. A construção, iniciada em 1927, culminou na inauguração em 1933, com cinco andares e subsolo, posicionando-o como um dos edifícios mais altos do Brasil naquele período.
Ao longo das décadas, o Moreira Garcez foi ampliado, recebendo novos pavimentos em 1937 e, posteriormente, mais dois andares, consolidando sua imponência na paisagem urbana. Este edifício histórico é um símbolo da modernização urbana e do empreendedorismo em Curitiba, dialogando com o passado enquanto se insere no presente.
A Importância da Preservação do Patrimônio Histórico
A conservação de edifícios como a Casa Romário Martins e o Edifício Moreira Garcez é fundamental para a compreensão da trajetória de Curitiba. Estes monumentos históricos não são meros vestígios do passado, mas sim ferramentas pedagógicas que conectam as pessoas à sua origem e à evolução da sociedade.
A atuação do poder público, por meio de políticas de tombamento e restauração, é crucial para garantir que essas edificações transcendam gerações. O investimento em patrimônio histórico é um investimento na identidade e na memória coletiva, fortalecendo o senso de pertencimento e o orgulho cívico.
Ao visitar e conhecer a história por trás dessas estruturas, os cidadãos tornam-se guardiões ativos desse legado. A preservação arquitetônica é, portanto, uma responsabilidade compartilhada entre instituições e a comunidade, assegurando que as futuras gerações também possam aprender com as lições que a arquitetura de Curitiba oferece.






