Uma nova iniciativa voltada para a inclusão educacional e a promotora de leitura foi inaugurada na Rua da Cidadania do Cajuru, em Curitiba. O espaço abriga uma biblioteca comunitária que opera sob um modelo inovador: sem a presença de um bibliotecário dedicado. A organização do acervo e a gestão inicial dos empréstimos foram realizadas por alunos da Universidade Aberta à Pessoa Idosa (Unapi), como parte de seu trabalho de conclusão de curso.
A proposta, concebida por um grupo de oito estudantes do polo local, visa democratizar o acesso à leitura e fomentar a responsabilidade compartilhada entre os usuários. O acervo está acessível ao público durante o horário de funcionamento da Rua da Cidadania, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Esta iniciativa se soma a outros espaços de leitura já existentes na cidade, reforçando o compromisso com a disseminação cultural.
A criação da Unapi é fruto de uma parceria estratégica entre o governo estadual e a Prefeitura de Curitiba, com três polos operacionais na capital paranaense. A coordenação geral dessas unidades fica a cargo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano (SMDH), garantindo uma gestão integrada e alinhada às necessidades da comunidade.
O acervo inicial é composto por aproximadamente 250 títulos, abrangendo áreas diversas como arte, literatura clássica e contemporânea, além de obras infantis. Todos os livros foram originados de doações dos próprios alunos, seus amigos e colegas de outros polos da Unapi. As estantes que abrigam os livros também são um reflexo do conceito de sustentabilidade do projeto, construídas a partir de materiais reciclados, como pallets e caixas de feira.
A concepção desta biblioteca comunitária se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com foco especial em educação de qualidade, saúde e bem-estar, e comunidades sustentáveis. A iniciativa busca não apenas oferecer acesso a livros, mas também servir como um contraponto à predominância da cultura digital, resgatando o valor intrínseco do material impresso e o processo de aprendizado que ele proporciona.
O Princípio da Autogestão e a Comunidade como Guardiã
Um dos aspectos mais notáveis deste projeto é o seu sistema de funcionamento autogerenciado. A premissa é simples: qualquer pessoa interessada pode escolher um livro, realizar o empréstimo mediante registro em uma planilha disposta em uma bancada, e levar a obra consigo. A ausência de um profissional responsável pela supervisão visa fortalecer o senso de responsabilidade coletiva e a confiança nos usuários.
A expectativa dos idealizadores é que os leitores devolvam os livros em bom estado após a leitura e, idealmente, contribuam com novas doações para expandir o acervo e a circulação de títulos. Há uma solicitação específica para que materiais como apostilas, manuais técnicos ou livros de cunho estritamente religioso não sejam incluídos no acervo, buscando manter um foco mais amplo e diversificado na literatura e no conhecimento geral.
Edite Viana dos Santos Alves, coordenadora do projeto e aluna da Unapi Cajuru, que possui formação em biblioteconomia, vislumbra um futuro promissor para a iniciativa. Ela acredita que a análise dos registros de empréstimos pode gerar insights valiosos sobre os hábitos de leitura da comunidade, abrindo portas para a formação de grupos de discussão e clubes de leitura.
A troca de impressões sobre obras lidas em comum, segundo Alves, enriqueceria a experiência literária, permitindo que os participantes compartilhem interpretações e aprofundem a compreensão dos temas abordados em cada livro. Essa perspectiva ressalta o potencial transformador da biblioteca para além da simples disponibilização de acervo.
Impacto Social e a Ampliação do Acesso ao Conhecimento
A iniciativa da biblioteca sem bibliotecário representa um marco na forma como as comunidades podem se apropriar de espaços culturais e educativos. Ao delegar a responsabilidade pela gestão a um sistema de confiança mútua, o projeto não só otimiza recursos, mas também empodera os frequentadores, transformando-os em co-responsáveis pela vitalidade do espaço.
A sustentabilidade intrínseca ao projeto, evidenciada pelo uso de materiais reciclados e pela doação de livros, envia uma mensagem poderosa sobre a importância da consciência ambiental e da economia circular. Essa abordagem multifacetada demonstra que é possível promover a cultura e a educação de maneira responsável e engajadora.
Os alunos envolvidos no projeto – Claudete Lúcia Segueto, Eneida Neves da Rocha, Francisco Nocko, Jeni Amélia Laskoski, José Luís Alves Júnior, Mitsue Ito Possani e Ivanilda de Oliveira – demonstraram um profundo entendimento das necessidades comunitárias e a capacidade de articular soluções inovadoras. A participação ativa desses estudantes é um testemunho do potencial da educação continuada e do engajamento cívico.
A expansão futura do acervo, impulsionada pelas doações e pela própria dinâmica de empréstimos, sugere que esta biblioteca tem potencial para se tornar um centro vibrante de aprendizado e interação social. A replicabilidade do modelo em outros contextos comunitários também emerge como uma possibilidade, dada a sua simplicidade e eficácia em promover o acesso à informação e à cultura.






