Artista paranaense colore Curitiba com letras que inspiram coragem

🕓 Última atualização em: 21/09/2026 às 21:28

A arte urbana transcende a mera estética para se tornar um poderoso veículo de expressão e reflexão social. Em Curitiba, a artista Cristina Pagnoncelli, conhecida por seu trabalho com lettering – a arte de desenhar letras à mão –, exemplifica essa potência. Sua obra mais emblemática, o mural “Coragem”, localizado em frente ao Passeio Público, vai além de um simples estímulo visual, encapsulando a trajetória de uma artista engajada com causas como o empoderamento feminino e a crítica às normas sociais.

Nascida em Pato Branco, no interior do Paraná, Pagnoncelli migrou para Curitiba aos 18 anos. Sua jornada artística é marcada pela constante busca por autenticidade e pela superação de barreiras, tanto pessoais quanto profissionais. Essa resiliência é simbolizada pela própria palavra “Coragem”, que se tornou um ícone na paisagem urbana da capital paranaense.

A especialidade de Pagnoncelli reside em transformar tipografia em poesia visual. Suas intervenções urbanas frequentemente carregam mensagens contundentes, visando dar visibilidade a outras artistas mulheres e desafiar convenções estabelecidas. Uma de suas criações notáveis é o mural em homenagem ao poeta Paulo Leminski, com o termo “Perhapiness”, que adorna uma parede no Brooklyn, em Nova Iorque, demonstrando o alcance internacional de seu trabalho.

A formação em design gráfico serviu como base para sua carreira, mas foi a insatisfação com os rumos da publicidade tradicional que a impulsionou a buscar uma expressão artística mais genuína e alinhada aos seus valores. Essa transição marcou o início de uma busca por processos criativos mais manuais e significativos.

Da frustração à afirmação artística

Aos 24 anos, uma experiência transformadora na Europa, especialmente em Barcelona, onde cursou Pós-graduação em Ilustração Criativa, foi fundamental. Esse período de imersão cultural e educacional na Espanha, aliado a uma posterior vivência em Nova Iorque estudando visual branding e ilustração, solidificou seu interesse pela arte de rua e pelas intervenções tipográficas.

De volta ao Brasil, Pagnoncelli iniciou seu trabalho com chalk lettering em espaços comerciais, muitas vezes em regime de permuta. Aprofundou seus estudos em caligrafia e tipografia e, em seguida, cofundou o coletivo Criatipos, que rapidamente alcançou reconhecimento nacional e internacional, participando de eventos como o Lollapalooza e realizando projetos educativos em diversos países.

A transição para murais de grande porte se intensificou após essas experiências. Em 2014, realizou o mural “Perhapiness” em Nova Iorque, em colaboração com Silvia Costa, e em 2016, pintou seu primeiro grande mural em Curitiba, na fachada do Moinho Rebouças. A pandemia de Covid-19, paradoxalmente, impulsionou ainda mais sua produção, com obras que ecoavam a necessidade de resiliência e esperança.

Arte como Ferramenta de Impacto Social e Empoderamento

Um dos projetos mais significativos de Cristina Pagnoncelli é o “Lute Todos os Dias”, idealizado há uma década. Inicialmente concebido como um calendário anual voluntário, o projeto visa não apenas promover a arte produzida por mulheres, mas também gerar fundos para causas sociais. Atualmente, a iniciativa passa por uma reestruturação com o objetivo de profissionalizar sua gestão e garantir remuneração às artistas participantes, buscando editais de fomento e parcerias estratégicas.

A obra “Coragem”, que nasceu de uma frustração criativa em 2021, exemplifica a capacidade de Pagnoncelli em transformar adversidades em força motriz. O projeto original, que previa a homenagem à poeta Alice Ruiz com um poema que continha a palavra “úmida”, foi vetado pelos proprietários do edifício por seu conteúdo considerado sexualmente explícito. A artista, apesar do desapontamento inicial, reagiu com determinação, escolhendo a palavra “Coragem” para sua intervenção.

“Eu sei que fui ousada, e acho que também faz parte da caminhada. Mas eu fiquei muito frustrada [com o veto], lembro que chorei, queria desistir do projeto. E aí eu pensei: ‘Não! Esse espaço me foi dado, eu fui convidada pra pintar uma lateral de prédio, são seis andares’. Era o meu maior trabalho até então e eu falei ‘vou pintar, vou fazer alguma coisa’. E aí no meio do processo surgiu a palavra coragem, e eu falei ‘é isso, eu preciso ter coragem pra continuar, pra fazer minha arte’, e tá lá”, relatou a artista, ressaltando a importância de perseverar e transformar obstáculos em combustível criativo. Essa filosofia se reflete em seu legado artístico e ativista.

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