Araucária centenária em queda inspira resgate de DNA em larga escala por pesquisadores

🕓 Última atualização em: 08/05/2026 às 19:31

A queda de uma monumental araucária, uma das maiores do Brasil, na Estação Experimental da Embrapa Florestas em Caçador, Santa Catarina, desencadeou uma operação emergencial de resgate genético. A árvore, carinhosamente apelidada de “Pinheirão”, atingia 44 metros de altura e possuía 2,45 metros de diâmetro à altura do peito, dimensões que a colocavam entre os quatro maiores exemplares conhecidos da espécie Araucaria angustifolia no país.

A mobilização da equipe da Embrapa, incluindo pesquisadores e bolsistas, visa coletar material genético e tentar a clonagem da árvore. A ação é crucial para a preservação das características únicas desta espécie, que enfrenta desafios crescentes.

A coleta de brotações viáveis foi realizada poucos dias após o tombamento, maximizando as chances de sucesso. O material coletado foi imediatamente encaminhado para laboratório para o processo de enxertia, um procedimento biotecnológico que poderá levar cerca de cem dias para confirmar sua efetividade.

A necessidade de intervir após a queda se deve, em parte, à dificuldade logística de acessar o material genético em árvores de grande porte ainda em pé. A altura extrema e a complexidade de escalada tornavam o procedimento inviável, reforçando a importância da ação emergencial.

A Embrapa Florestas lidera este esforço, em colaboração com outras instituições, buscando não apenas a clonagem, mas também o aprofundamento do estudo sobre a genética da araucária, visando entender fatores como longevidade e resistência.

A complexidade da determinação etária e os riscos ambientais

A idade exata do “Pinheirão” permaneceu um mistério. A oquidão parcial do tronco impedia a aplicação da dendrocronologia, método preciso de contagem de anéis de crescimento. Tradicionalmente, essa análise é realizada em árvores íntegras através de sondagens ou cortes em discos de madeira.

O diâmetro à altura do peito (DAP), medido a 1,30 metro do solo, segue um padrão internacional para estudos de crescimento e comparações científicas. No entanto, no caso desta araucária monumental, mesmo a análise de discos coletados em partes íntegras do tronco fornecerá apenas uma estimativa mínima de sua idade.

A queda de árvores de grande porte como esta está sendo cada vez mais associada às mudanças climáticas. Estudos recentes apontam que o aumento da frequência e intensidade de chuvas extremas no Sul do Brasil contribui significativamente para a instabilidade do solo. A saturação hídrica, especialmente em solos argilosos, compromete a capacidade de ancoragem das raízes, tornando árvores robustas e centenárias mais vulneráveis.

O peso e a grande copa dessas árvores, embora indicadores de saúde e maturidade, tornam-nas presas fáceis em solos enfraquecidos pela umidade excessiva. Este fenômeno, acentuado por eventos como o El Niño, demanda novas estratégias de monitoramento e conservação para proteger remanescentes florestais de valor inestimável.

Legado, inspiração e iniciativas de conservação

A monumental araucária era um ponto de referência e inspiração para pesquisadores e visitantes da Estação Experimental da Embrapa em Caçador desde 2003. Sua presença imponente, mesmo com a fragilidade observada em seu tronco, motivou diversos trabalhos e dias de campo com participação de especialistas internacionais.

Pesquisadores de instituições como a FAO e a Universidade Politécnica de Madri já haviam visitado a árvore em agendas de intercâmbio científico. A equipe da Embrapa Florestas, ciente de sua magnitude, optou por não investigar sua idade com métodos invasivos, preferindo preservar sua integridade e aproveitar sua presença como símbolo.

A queda do “Pinheirão” evoca memórias de situações semelhantes, como o resgate genético de outra araucária de grande porte em Cruz Machado, no Paraná, também conduzido pela Embrapa Florestas. Essa experiência prévia serve como um importante precedente técnico e fonte de conhecimento para a operação atual.

A iniciativa de coletar material genético não é apenas uma resposta a um evento isolado, mas parte de um esforço contínuo para a preservação da biodiversidade. A Araucaria angustifolia, um ícone da Mata Atlântica, necessita de ações proativas diante das ameaças ambientais e da importância de salvaguardar seu patrimônio genético para futuras gerações.

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