A loja Kilouça, um estabelecimento comercial com profundas raízes históricas em Curitiba, comemora 80 anos de atuação em 2026. Fundada em 1946, a empresa, que hoje opera em dois endereços na capital paranaense, consolidou-se como uma referência no setor de utilidades domésticas, adaptando-se às mudanças de mercado e às demandas dos consumidores ao longo de oito décadas. A trajetória da Kilouça reflete a evolução do comércio na cidade e a resiliência de negócios familiares.
A saga familiar que deu origem à Kilouça iniciou-se com Elias Derviche, imigrante libanês que chegou ao Brasil no final da década de 1930. Juntamente com seu irmão, Elias estabeleceu alguns negócios, incluindo lojas de tecidos. Uma dessas primeiras empreitadas, a Metro de Ouro, localizada em uma área central da cidade, foi o ponto de partida para a futura Kilouça.
Após a dissolução da sociedade com o irmão, Elias Derviche herdou a loja Metro de Ouro e, em 1946, tomou a decisão estratégica de transformá-la. A loja de tecidos deu lugar a um estabelecimento voltado para utilidades domésticas, oficialmente nomeado Elias Derviche & Cia Ltda. Esta mudança marcou o nascimento do que viria a ser conhecido como Kilouça, posicionando-se como uma das pioneiras no nicho de utilidades para o lar em Curitiba.
No início, a loja operava como um comércio de varejo generalista, adaptando seu estoque sazonalmente. Em datas comemorativas como Páscoa e Dia das Crianças, o mix de produtos era alterado para atender à demanda específica de chocolates ou brinquedos, respectivamente. No período natalino, o sortimento se tornava ainda mais diversificado, integrando diversos tipos de mercadorias.
Um incêndio no início da década de 1950, que atingiu o imóvel original da loja, forçou uma realocação. A loja foi reconstruída e reinaugurada em um novo prédio, que até hoje abriga uma das unidades da Kilouça no centro da cidade, próximo à Praça Tiradentes. Este evento, apesar dos transtornos, permitiu a modernização do espaço e a consolidação da marca.
Evolução e especialização: do nome à vocação
A liderança da Kilouça passou para a segunda geração com Ernani Derviche, pai de Rodrigo Nicotra Derviche, atual gestor. Foi sob sua gestão, na década de 1980, que o estabelecimento adotou o nome Kilouça. A denominação, que pode parecer peculiar pela prevalência de panelas e utensílios metálicos hoje em dia, tem suas origens na época em que a loja comercializava uma grande variedade de louças, provenientes de polos de produção próximos como Campo Largo.
“Naquela época, era muita louça. Campo Largo tinha as fábricas, mas não tinha as lojas. Então você comprava lá e trazia para cá para vender. Por isso ele deu o nome Kilouça”, explica Rodrigo. A longevidade e o reconhecimento da marca levaram à decisão de manter o nome, apesar da mudança no foco principal do mix de produtos.
Um dos serviços distintivos introduzidos por Ernani Derviche foi o conserto de panelas, um diferencial pioneiro em Curitiba. Este serviço, embora não seja o principal faturamento, atua como um poderoso atrativo, atraindo clientes que, ao trazerem seus utensílios para reparo, descobrem a vasta gama de produtos oferecidos pela loja.
Atualmente, a Kilouça dispõe de cerca de 11 mil itens, configurando-se como um “minimercado” focado em utilidades para o lar. Desde a década de 1990, a empresa intensificou sua especialização em produtos para a cozinha residencial, afastando-se gradualmente do atendimento a grandes clientes como restaurantes, indústrias e hospitais.
Legado familiar e adaptação contínua
Rodrigo Nicotra Derviche, com 50 anos de idade e 38 dedicados à Kilouça, representa a terceira geração à frente do negócio. Sua trajetória na empresa começou precocemente, aos 12 anos, seguindo a filosofia de seu pai de que o dono de uma loja deve conhecer todas as suas facetas. Ele iniciou no escritório, passando por diversas áreas, incluindo limpeza, embalagem de presentes, trabalho como motorista e, crucialmente, aprendendo o ofício do conserto de panelas.
A transição para a gestão administrativa ocorreu no início dos anos 2000, culminando com o afastamento de seu pai do negócio em 2012, devido a problemas de saúde, e seu falecimento em 2013. Sua mãe, Vincenza Nicotra, com quem Ernani compartilhou 40 anos de casamento e sociedade comercial, também atuou na loja por décadas, saindo apenas após o falecimento do marido.
Rodrigo observa mudanças significativas nos padrões de consumo. O costume de presentear com utilidades domésticas, outrora comum, especialmente para mulheres, diminuiu consideravelmente. Hoje, essa prática é mais restrita a ocasiões específicas como casamentos. Em contrapartida, nota um aumento no interesse masculino por utilidades domésticas, especialmente com a crescente participação dos homens na cozinha.
“No Dia dos Pais, eu vendo muito mais presente do que no Dia das Mães. E dezembro mesmo não é um mês bom para mim. Mas o Dia dos Pais é muito bom”, relata Rodrigo. Ele também aponta o período de inverno como um momento de maior demanda, quando as pessoas tendem a permanecer mais em casa, buscando itens que facilitem a preparação de receitas e o convívio familiar.





