A busca por mecanismos financeiros inovadores para a conservação da biodiversidade tem ganhado destaque no cenário internacional. Instituições financeiras de fomento, como o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), têm apresentado suas experiências em foros globais, demonstrando como o capital privado pode ser direcionado para a proteção de ecossistemas.
Recentemente, em agendas realizadas em Portugal, o BRDE expôs o modelo brasileiro de estruturação de instrumentos financeiros voltados à valorização da biodiversidade. A participação em debates com financiadores, empresas e especialistas em sustentabilidade sublinha a crescente relevância dos chamados créditos de biodiversidade.
Este tema ganhou contornos mais definidos após o estabelecimento do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. O acordo estabelece metas ambiciosas, como a mobilização de no mínimo US$ 200 bilhões anuais até 2030 para ações de conservação. A iniciativa prevê o uso de ferramentas financeiras inéditas, incluindo títulos verdes e pagamentos por serviços ecossistêmicos, além dos créditos de biodiversidade.
As discussões em Lisboa e no Porto focaram não apenas na apresentação de modelos, mas também nos desafios inerentes a esse mercado emergente. Questões como a credibilidade dos instrumentos, a mensuração dos impactos e a gestão de riscos foram centrais nos debates. A ideia é construir uma infraestrutura de confiança sólida para garantir a efetividade desses mecanismos.
A Trama Financeira para a Natureza
A estruturação de um mercado robusto para a conservação ambiental exige clareza em suas premissas. Não se trata meramente de uma transação financeira, mas sim de criar um sistema que reconheça e recompense a manutenção e a recuperação de ecossistemas. Isso implica em métricas bem definidas, processos de verificação independentes e total transparência.
A experiência apresentada pelo BRDE exemplifica essa abordagem. Um caso concreto envolve o fomento de créditos de biodiversidade originados em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) no estado do Paraná. O projeto visa aquisição de créditos, estabelecendo um limite financeiro e quantitativo para cada reserva participante, incentivando a conservação em áreas privadas.
Essa iniciativa paranaense foi destacada como um modelo de como bancos de fomento podem organizar a demanda por ativos ambientais de alta integridade. Ao remunerar proprietários de reservas pela conservação, o sistema cria um incentivo econômico direto para a proteção da natureza, ao mesmo tempo em que oferece um caminho técnico para empresas e investidores que buscam cumprir suas metas de sustentabilidade.
O BRDE tem se posicionado como um pioneiro nessa agenda, sendo reconhecido como o primeiro Banco Verde do Brasil. Sua adesão à Coalizão LIFE de Negócios e Biodiversidade reforça esse compromisso. A certificação LIFE, obtida em 2024, permite uma avaliação detalhada da pressão exercida por uma organização sobre a biodiversidade, comparando-a com ações positivas de conservação.
Essa metodologia possibilita a estruturação de planos de ação, a otimização de processos internos e a incorporação de critérios de biodiversidade na tomada de decisões estratégicas e financeiras da instituição. A integração desses fatores é crucial para que os objetivos de sustentabilidade se traduzam em ações concretas e mensuráveis.
Desafios e Oportunidades em um Mercado em Formação
O debate sobre créditos da natureza, especialmente na Europa, tem avançado. A Comissão Europeia, em 2025, lançou um roteiro com o intuito de estimular o investimento privado em proteção ambiental. O objetivo é criar um ambiente propício para que atividades benéficas à natureza gerem receitas para os protetores de ecossistemas e para investidores com compromisso socioambiental.
Entretanto, o mercado de créditos de biodiversidade ainda se encontra em estágio inicial. Um ponto de atenção levantado por análises técnicas é que estes créditos não devem ser considerados equivalentes diretos aos créditos de carbono. A complexidade e a falta de uma unidade universal comparável à tonelada de CO₂ tornam a mensuração e a comparação mais desafiadoras.
A credibilidade do instrumento depende de fatores como a adicionalidade (a conservação não teria ocorrido sem o crédito), a permanência (garantia de que os benefícios ambientais serão mantidos a longo prazo), a qualidade da mensuração e a robustez da verificação independente. Além disso, a inclusão de salvaguardas sociais é fundamental para assegurar que as comunidades locais e os povos indígenas sejam considerados e beneficiados.
A atuação do BRDE neste campo está alinhada com a estratégia do seu Fundo Verde e de Equidade. Este fundo, criado para apoiar projetos socioambientais e climáticos com recursos não reembolsáveis, prevê a disponibilidade de R$ 40 milhões entre 2021 e 2026. Anualmente, 1,5% do lucro líquido do banco é destinado ao fundo, sendo este montante dividido igualmente entre os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Além do projeto de créditos de biodiversidade no Paraná, o BRDE tem apoiado diversas outras iniciativas. Estas incluem ações de restauração e conservação ambiental, segurança hídrica, descarbonização industrial, saneamento básico, fomento à economia circular e fortalecimento da resiliência climática, com um olhar atento para a inclusão produtiva de populações vulneráveis.






