Em Londrina, uma iniciativa inovadora tem redefinido o acesso à ciência para estudantes surdos. O Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES), parte da rede estadual de ensino, está fomentando o protagonismo estudantil e a iniciação científica através do Clube de Ciência Em Mãos. Este projeto utiliza a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como principal ferramenta pedagógica, desmistificando a ciência e abrindo portas para a pesquisa e a experimentação.
O Clube de Ciência Em Mãos faz parte da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, uma colaboração estratégica entre o NAPI Paraná Faz Ciência, a Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR), a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) e a Fundação Araucária. Essa colaboração visa expandir as oportunidades de aprendizado científico em todo o estado.
Há dois anos, o projeto estabeleceu uma parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL). O objetivo central é impulsionar a presença de alunos surdos em ambientes de pesquisa e dar maior visibilidade ao trabalho pedagógico desenvolvido no ILES, promovendo um intercâmbio rico de conhecimento e experiências.
Um dos pilares do clube é a produção de sabão a partir de óleo de cozinha usado. Esta atividade transcende a simples experimentação, integrando conceitos de sustentabilidade, aprendizado prático e pesquisa científica. Paralelamente, os estudantes desenvolvem materiais de apoio em Libras, fortalecendo sua autonomia comunicacional e seus projetos de vida.
A professora Alessandra Francisco, com 30 anos de docência e 15 dedicados ao ILES, é a força motriz por trás da iniciativa. Ela expressa o desejo de que estudantes surdos ganhem visibilidade e que a ciência seja acessível. “Precisava unir pesquisa, desenvolvimento científico e iniciação científica com acessibilidade. O projeto vai além da escola. É para a vida e para o futuro deles”, enfatiza.
O secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda, destaca o papel crucial dessas ações. “Precisamos de iniciativas que ampliem o horizonte dos nossos alunos e transformem dificuldades em possibilidades”, afirmou. Ele complementa que os clubes de ciências promovem a iniciação científica de forma democrática, preparando os estudantes para o ensino superior e para o futuro profissional.
Acessibilidade Científica e o Poder da Visualidade em Libras
Para Alessandra Francisco, a simples tradução de conteúdo não é suficiente. O ensino da ciência para surdos exige uma abordagem visual, demonstrativa e respeitosa do tempo de aprendizagem. “No laboratório, não basta chegar falando. Tudo precisa acontecer no tempo deles, com calma, apoio visual e demonstração, porque eles aprendem pelo visual. Por isso, resolvi construir o nosso sinalário sempre próximo da pesquisa científica”, explica.
O desenvolvimento de um sinalário científico em Libras tem sido uma frente de trabalho prioritária. Os alunos identificam termos técnicos, criam sinais específicos, gravam vídeos explicativos e elaboram materiais didáticos. Essa produção atende a uma carência significativa na educação científica adaptada, onde a presença de um intérprete, embora importante, difere da instrução direta em Libras.
A criação de um jogo bilíngue, com elementos em português e Libras, também integra as atividades do clube. O jogo visa ser um recurso adicional para o aprendizado de estudantes surdos, consolidando conceitos através de diferentes formatos de interação. A professora defende que “a ciência é um lugar de todos e deve ser ocupada por todos”.
A expansão da Educação em Tempo Integral tem sido um fator facilitador para o avanço do projeto. A maior permanência dos alunos na escola permite um vínculo mais estreito com os educadores e a continuidade das atividades de pesquisa e desenvolvimento, conforme aponta a coordenadora da Educação em Tempo Integral da Seed-PR.
Esse modelo expandido de jornada escolar possibilita que os professores se aprofundem em temas complexos, como a análise de dados gerados nas pesquisas e a produção de materiais em Libras, aprimorando a formação acadêmica dos estudantes.
Heycon Lucas Pedroso dos Santos, 16 anos, aluno da 1ª série do Ensino Médio, relata como sua participação no clube transformou sua relação com a ciência e a escola. Inicialmente sem interesse pelas disciplinas, ele encontrou no clube um espaço de pertencimento e desenvolvimento pessoal. “Eu não gostava de ciência, nem de Química ou Biologia, mas entrei no clube. Com o tempo, fui descobrindo um lugar em que eu me encaixava”, conta.
Hoje, Heycon é um participante ativo nas pesquisas, na criação de conteúdos em Libras e no auxílio aos colegas. A experiência no clube tem fortalecido sua autoconfiança e sua postura acadêmica. Ele reconhece o apoio dos educadores em seu desenvolvimento. “Às vezes eu me rebaixava, e a professora dizia: ‘Para com isso, você é inteligente, você consegue’. Esses incentivos me ajudaram a desenvolver mais autoconfiança”, compartilha.
A participação do projeto na Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (Fecci) em 2025, onde obteve o terceiro lugar em divulgação científica, foi um marco. Alessandra Francisco considera o evento simbólico, pois expôs o trabalho dos estudantes a um público que muitas vezes desconhece suas capacidades. “Naquele momento, eu senti o impacto social do projeto. Era a primeira vez que eles estavam sendo vistos daquela forma”, declara.
Heycon também enxerga a feira como um divisor de águas. “Eu achava que era tímido e que não tinha capacidade, mas entendi que isso não era verdade. Aquele momento foi muito importante para mim. Futuramente, penso em continuar sendo pesquisador, se der tudo certo”, projeta.
Educação em Tempo Integral: Catalisador de Oportunidades e Inclusão
O Programa Paraná Integral (PPI) é uma iniciativa da Secretaria de Estado da Educação que visa aprimorar a jornada escolar, oferecendo aos alunos mais tempo para aprendizado e desenvolvimento. A adesão ao programa tem crescido exponencialmente, com 485 escolas estaduais envolvidas, beneficiando mais de 99 mil estudantes com a Educação em Tempo Integral.
Esse modelo de ensino se distingue pela ampliação da permanência dos estudantes na escola, com jornadas que variam entre 35 e 45 horas semanais. Isso possibilita a oferta de atividades complementares que abrangem as esferas acadêmica, cultural, esportiva e socioemocional, promovendo uma formação mais holística.
Adicionalmente, as escolas do PPI integram o currículo da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) com unidades curriculares diversificadas, que podem ser de oferta obrigatória ou eletiva, permitindo aos alunos explorarem áreas de interesse específicas.
A ampliação da jornada escolar também reflete positivamente na alimentação dos estudantes. Aqueles matriculados na Educação em Tempo Integral recebem cinco refeições diárias gratuitas, incluindo café da manhã, almoço e lanches, garantindo nutrição adequada ao longo do dia letivo.






