Saúde Mental Abala Enfermagem

🕓 Última atualização em: 02/02/2026 às 18:36

Profissionais de saúde, com destaque para a Enfermagem, estão entre as categorias com maior número de afastamentos do trabalho devido a questões de Saúde Mental. Dados consolidados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), compilados na plataforma SmartLab pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Ministério Público do Trabalho (MPT), revelam um cenário preocupante. Entre 2012 e 2024, mais de 70 mil licenças foram concedidas a técnicos de enfermagem, auxiliares e enfermeiros, evidenciando o impacto das exigências ocupacionais sobre o bem-estar psíquico desses trabalhadores.

Essa estatística, embora expressiva, pode subestimar a real dimensão do problema. Especialistas alertam que o registro oficial abrange apenas afastamentos com duração superior a 15 dias. Profissionais autônomos (MEI) e servidores públicos com regimes de previdência próprios não entram nessa contagem. A preocupação é elevada, dada a natureza intrinsecamente desafiadora da profissão.

O ano de 2025 marcou um pico histórico de afastamentos por transtornos mentais no Brasil, superando a marca de 546 mil licenças, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Transtornos de humor, especialmente quadros depressivo-ansiosos, encabeçam a lista. Profissionais na linha de frente do cuidado enfrentam jornadas extensas, alta pressão emocional, equipes reduzidas e a lamentável normalização da violência no ambiente de trabalho.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu Relatório Mundial da Saúde Mental de 2022, já sinalizava que o impacto dos transtornos psíquicos no mercado de trabalho transcende barreiras econômicas, afetando tanto países de baixa renda quanto nações desenvolvidas. A perda anual de dias de trabalho globalmente, estimada em 12 bilhões, acarreta um custo econômico próximo a um trilhão de dólares.

O paradoxo do trabalho: cura e adoecimento

O trabalho, em sua essência, pode ser um poderoso promotor da Saúde Mental. Proporciona estrutura temporal, interações sociais, um senso de propósito e realização, além de identidade social. Esses elementos são cruciais para a organização da rotina e o bem-estar psíquico do indivíduo.

No entanto, a mesma atividade laboral pode se tornar um vetor de adoecimento. Condições como sobrecarga de trabalho, falta de clareza nas instruções, prazos irrealistas, exclusão de processos decisórios, insegurança no emprego, isolamento e dificuldades no cuidado com filhos contribuem significativamente para o desenvolvimento ou agravamento de transtornos psíquicos.

Dorisdaia Humerez, doutora em Enfermagem e Saúde Mental, reforça que, independentemente da resiliência individual, as condições laborais moldam a saúde mental dos trabalhadores. A “ideologia gerencialista”, ao exaurir o capital mental do indivíduo em prol da produtividade, pode precipitar quadros agudos de estresse e depressão. A vigilância constante e a erosão do senso de coletividade também minam a motivação intrínseca.

Diante desse cenário, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) tem buscado fortalecer o apoio aos profissionais. A criação da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental representa um passo significativo nesse sentido.

Novas Estruturas de Apoio e Prevenção

A recém-criada Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental reunirá especialistas para assessorar o Cofen na formulação de políticas públicas e no desenvolvimento de ações de suporte. O objetivo é oferecer um subsídio qualificado para o enfrentamento dos desafios que afetam o bem-estar psíquico da categoria.

Um dos projetos prioritários da Câmara será a reformulação e ampliação do Programa Enfermagem Solidária. Renomeado para “Central de Atendimento e Suporte à Saúde Mental”, o novo serviço funcionará com sistema de agendamento, utilizando a multiplataforma CofenPlay para maior acessibilidade e alcance aos profissionais.

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