Apesar de ser uma profissão majoritariamente feminina, com 85% dos seus quadros compostos por mulheres, a Enfermagem no Brasil ainda enfrenta desafios significativos relacionados a desigualdades de gênero e raça, que impactam diretamente a valorização profissional e a remuneração. A luta histórica por reconhecimento e melhores condições de trabalho se entrelaça com a necessidade de corrigir disparidades salariais persistentes e a precarização dos vínculos empregatícios.
A profissão, cujas raízes remontam a pioneiras que moldaram o cuidado em uma prática científica e essencial para o sistema de saúde, continua a ser um pilar fundamental na assistência. No entanto, a representatividade feminina, embora expressiva, não se traduz automaticamente em igualdade de oportunidades e tratamento justo.
O contexto socioeconômico atual no Brasil aponta para uma realidade onde, mesmo com alta escolaridade, as mulheres ainda experimentam uma significativa defasagem salarial em comparação aos homens. Dados recentes indicam que essa disparidade se acentua entre profissionais com ensino superior, mesmo quando atuam na mesma área de especialização.
A conquista do Piso Salarial Nacional para a Enfermagem representou um marco importante. Contudo, a falta de mecanismos efetivos de correção e a desvinculação de índices inflacionários podem comprometer a sustentabilidade e o poder de compra desse piso. A perda de valor ao longo dos anos é uma preocupação crescente para a categoria.
A interseccionalidade das desigualdades na Enfermagem
A análise das remunerações dentro da Enfermagem revela um cenário ainda mais complexo quando se considera a interseccionalidade entre gênero e raça. Estudos que comparam o tempo necessário para que diferentes grupos alcancem a mesma remuneração demonstram que mulheres negras enfrentam barreiras adicionais.
Para que uma mulher negra alcance o mesmo rendimento de um homem branco em 30 horas de trabalho na Enfermagem, por exemplo, seriam necessárias quase 28 horas para o homem negro e mais de 24 horas para a mulher branca, enquanto o homem branco precisaria de pouco mais de 23 horas. Essa diferença sublinha a urgência de políticas públicas que abordem o racismo estrutural no mercado de trabalho.
A precarização dos vínculos de trabalho é outro fator que agrava a situação, especialmente para mulheres negras, que já possuem menor representação no mercado formal e rendimentos inferiores. A terceirização e a contratação via cooperativas, por vezes utilizadas como artifícios para contornar o pagamento do piso salarial, criam um ambiente de instabilidade e desvalorização.
Relatos de diversos estados indicam que uma parcela expressiva da força de trabalho da Enfermagem, inclusive em instituições públicas de saúde, opera sob esses arranjos contratuais menos vantajosos, evidenciando a necessidade de fiscalização e regulamentação mais rigorosas.
A Enfermagem como aliada das mulheres em pautas de saúde
Paralelamente a essas lutas internas pela valorização, a profissão de Enfermagem mantém seu compromisso com as grandes pautas da Saúde Coletiva, posicionando-se ativamente ao lado das mulheres brasileiras. O envolvimento da categoria na defesa da humanização do parto, na redução da mortalidade materna e na garantia de acesso a direitos sexuais e reprodutivos é inegável e de profundo impacto social.
O fortalecimento da Enfermagem obstétrica, em particular, é reconhecido como estratégico para salvar vidas. Estimativas apontam para um potencial de impacto significativo na redução de mortalidades até 2035, o que reforça a importância de investir nesses profissionais e suas especialidades.
A proposição de reformas no modelo assistencial, como a discutida no manifesto “Reforma Obstétrica no Brasil Já”, reflete um consenso sobre a necessidade de transformações profundas. Essas propostas não são meramente técnicas, mas carregam um forte componente político e ético, visando combater as iniquidades e garantir que nenhuma mulher seja invisibilizada ou sofra consequências graves durante o processo de parto, especialmente aquelas pertencentes a grupos minorizados e historicamente marginalizados.

