A representação da Enfermagem brasileira em um foro global de saúde foi solidificada com a designação da professora Bartira de Aguiar Roza, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para integrar o Painel Consultivo de Especialistas em Doação e Transplante da Organização Mundial da Saúde (OMS). A nomeação, com validade de quatro anos, reflete o reconhecimento internacional da expertise do país e, em particular, da contribuição da Enfermagem para a excelência em transplantes de órgãos, área na qual o Brasil se destaca mundialmente pelo seu sistema público e pela expressiva quantidade de procedimentos realizados anualmente.
O Brasil se consolida como uma potência mundial em transplantes, com mais de 30 mil procedimentos realizados apenas em 2024. Este cenário coloca o país na vanguarda dos esforços para salvar vidas por meio da doação e do transplante de órgãos, tecidos e células. A Enfermagem desempenha um papel fundamental em cada etapa deste complexo processo, atuando desde a identificação de potenciais doadores até o delicado acompanhamento das famílias e a execução de procedimentos técnicos essenciais.
A expertise da professora Bartira Roza em pesquisas pioneiras é notória. Suas investigações abordam desde a otimização da logística de transporte de órgãos, um fator crítico para o sucesso do transplante, até a análise aprofundada dos motivos que levam à recusa familiar na doação. Esses estudos fornecem subsídios valiosos para aprimorar as estratégias e o atendimento oferecido.
Um dos achados de suas pesquisas evidencia a necessidade de melhor comunicação e esclarecimento sobre a morte encefálica, conceito que muitas vezes diverge da percepção leiga de morte. A pesquisa revelou que uma parcela significativa das famílias (21%) demonstra dificuldade em compreender essa condição, enquanto fatores como crenças religiosas (19%) e preocupações com a competência técnica da equipe hospitalar (19%) também influenciam a decisão de doar ou não.
Avanços na Logística e Comunicação
Em uma iniciativa que demonstra inovação e a capacidade de resposta da Enfermagem, Bartira Roza, em colaboração com colegas da Unifesp, desenvolveu uma embalagem inteligente. Este desenvolvimento tecnológico visa aprimorar o controle de temperatura durante o transporte dos órgãos, um aspecto crucial para garantir sua viabilidade e maximizar as chances de sucesso dos transplantes. A precisão nesta etapa é um diferencial para o sistema.
A comunicação com as famílias em momentos de extrema vulnerabilidade é uma das competências essenciais da Enfermagem. A professora Bartira Roza tem liderado estudos que exploram as barreiras na aceitação da doação, identificando lacunas na compreensão de conceitos médicos e a importância da confiança na equipe de saúde. Esses achados reforçam a necessidade de investimento contínuo na capacitação dos profissionais de saúde.
A formação contínua e especializada dos profissionais de Enfermagem é um pilar para a melhoria dos índices de doação. A temática da capacitação foi, inclusive, central em debates e cursos promovidos em eventos de grande porte, como o Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem, evidenciando o compromisso da área em aprimorar suas práticas.
O Papel Normatizado da Enfermagem na Doação e Transplante
A atuação da Enfermagem no ecossistema de doação e transplante de órgãos, tecidos e células é formalmente delimitada pela Resolução 710/2022. Este documento normativo estabelece claramente as responsabilidades e competências dos enfermeiros em todas as fases do processo, desde a abordagem inicial às famílias até os cuidados pós-procedimento.
Dentre as atribuições específicas da Enfermagem, destaca-se a condução da entrevista familiar, um momento sensível e crucial para obter o consentimento para a doação. Além disso, os profissionais são responsáveis pela realização dos procedimentos necessários para a reconstituição do corpo, incluindo a sutura, garantindo dignidade e respeito ao doador e à família.

