Universidade Federal do Paraná anuncia novas oportunidades de bolsas de estudo

🕓 Última atualização em: 26/03/2026 às 14:54

Três jovens estudantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão trilhando o caminho da educação superior, impulsionados por sonhos e superando os desafios impostos pela Distrofia Muscular de Duchenne (DMD). Charleston Roberto de Oliveira Mayer Junior, Filipe Silva Fleig e Bruno Steffen Monteiro, diagnosticados na infância com essa condição genética rara e progressiva, compartilham o objetivo comum de obter seus diplomas universitários, evidenciando a resiliência e a busca por igualdade de oportunidades.

A DMD é caracterizada pela degeneração e fraqueza muscular, com variações significativas na sua progressão entre os indivíduos. Frequentemente, leva à necessidade do uso de cadeiras de rodas, mas não representa um impedimento absoluto para a participação plena na vida acadêmica e social.

Filipe e Bruno ingressaram na UFPR em 2025, nos campi do litoral. Filipe cursa Ciências Ambientais em Matinhos, enquanto Bruno dedica-se à Licenciatura em Ciências Exatas em Pontal do Paraná. Ambos são filhos de professores da instituição, o que, segundo relatam, facilita a familiaridade com o ambiente universitário e conta com o apoio da comunidade acadêmica.

Charleston, por sua vez, é um calouro do curso de Direito na capital. Sua entrada na universidade foi precedida por um processo de acompanhamento junto à instituição, visando garantir a acessibilidade necessária para o pleno desenvolvimento de suas atividades letivas.

Estes estudantes fazem parte de um contingente maior de aproximadamente 950 alunos com deficiência na UFPR, que inclui também pessoas surdas e com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe) é o órgão responsável por implementar políticas e práticas inclusivas, assegurando a permanência, participação e aprendizagem desses alunos.

A trajetória de Charleston Roberto de Oliveira Mayer Junior no curso de Direito da UFPR é um testemunho de determinação. Diagnosticado com DMD na infância, ele vivenciou as primeiras dificuldades motoras precocemente. Sua motivação para os estudos nunca vacilou, mesmo após um grave quadro de saúde em 2024 que o levou à UTI por 22 dias.

A experiência de saúde o impulsionou a redefinir seus objetivos. Ele agora almeja advogar pelos direitos das pessoas com deficiência, inspirando-se na trajetória de sua mãe, uma advogada e ativista na área. A escolha pelo Direito visa capacitá-lo para atuar de forma eficaz em causas sociais, uma missão pessoal que ele considera fundamental.

O ingresso na UFPR foi um marco significativo para Charleston. Após um período de estudo autodidata, ele obteve êxito no vestibular e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2026. A emoção de iniciar essa nova fase acadêmica é palpável, representando a concretização de um projeto de vida que vai além da formação profissional.

Universidade como palco de superação e inclusão

A vivência de Filipe Silva Fleig na UFPR Litoral se confunde com a própria história do campus. Nascido no mesmo ano em que sua mãe, a professora Cristiane Rocha Silva, ingressou na instituição, e com o pai também docente na universidade, o ambiente acadêmico sempre foi uma presença constante em sua vida.

Sua escolha pelo curso de Ciências Ambientais foi guiada por uma afinidade com a natureza e o meio ambiente, áreas que lhe despertam grande interesse. A DMD foi diagnosticada aos 9 anos, mas, com apoio familiar e tratamentos contínuos, como fisioterapia e acupuntura, Filipe tem demonstrado uma notável capacidade de superar as barreiras impostas pela condição.

Ele se desloca autonomamente para a universidade com sua cadeira motorizada e participa ativamente das atividades de campo essenciais para sua formação. Recentemente, obteve uma bolsa de iniciação científica para pesquisar a presença de microplásticos em areias litorâneas, demonstrando seu engajamento acadêmico.

O ambiente universitário tem se mostrado acolhedor. Colegas e professores oferecem suporte diário, auxiliando em tarefas como organizar materiais e adaptando avaliações. Em atividades externas, como saídas de campo, a turma utiliza um ônibus adaptado com plataforma elevatória, garantindo a participação de Filipe.

Bruno Steffen Monteiro, também cursa a Licenciatura em Ciências Exatas na UFPR Litoral, campus Pontal do Paraná. Assim como Filipe, sua proximidade com a universidade é familiar, visto que seu pai é professor na instituição. A DMD, diagnosticada na infância, o acompanha, demandando o uso de cadeira de rodas motorizada.

Com preferência pelas áreas de exatas, Bruno encontrou no curso a possibilidade de explorar matemática, física e química. Adaptacões em seu local de estudo foram implementadas, como a personalização de uma mesa para atender às suas necessidades de manuseio de materiais.

O processo de adaptação das avaliações é um exemplo da colaboração entre alunos e docentes. Questões divididas em papéis menores facilitam o manuseio durante as provas, um ajuste pontual que demonstra a flexibilidade pedagógica em prol da inclusão.

Ações Institucionais e a Construção de uma Cultura Inclusiva

A UFPR tem intensificado seus esforços para garantir a inclusão de estudantes com deficiência, surdos e com TEA. Em 2026, a instituição registrou o ingresso de 289 novos alunos pertencentes a esses grupos, que são acompanhados pela Coordenadoria de Acessibilidade (CAS), ligada à Proafe.

O trabalho da CAS inicia-se com entrevistas que resultam em relatórios detalhados para as coordenações de curso. Tais documentos orientam as adaptações necessárias, que podem envolver desde o empréstimo de tecnologias assistivas até acompanhamentos pedagógicos individualizados. A singularidade de cada estudante com deficiência exige uma abordagem flexível e personalizada.

Wagner Bitencourt, coordenador da CAS, ressalta que o processo de inclusão é contínuo e se adapta às necessidades que surgem ao longo do percurso acadêmico do aluno. A instituição busca identificar e remover barreiras, sejam elas arquitetônicas, de comunicação ou, fundamentalmente, atitudinais, que refletem a percepção da sociedade sobre a deficiência.

A iniciativa de Charleston em buscar o curso de Direito para defender os direitos das pessoas com deficiência exemplifica a importância da educação como ferramenta de transformação social. A universidade, ao oferecer o suporte necessário, não apenas viabiliza o acesso ao ensino superior, mas também capacita futuros profissionais para atuarem como agentes de mudança.

A dedicação de professores e servidores em criar um ambiente acolhedor é crucial. Projetos de extensão, como o “Incluir na UFPR Litoral”, buscam conscientizar e promover debates sobre acessibilidade e inclusão, engajando a comunidade acadêmica e externa. A colaboração entre alunos, docentes e a estrutura administrativa é fundamental para construir um ecossistema universitário verdadeiramente inclusivo, onde todos os estudantes possam desenvolver seu pleno potencial.

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