UFPR Expande Fronteiras

🕓 Última atualização em: 24/02/2026 às 14:24

A luta pelo direito ao voto feminino no Brasil, que se consolidou formalmente com o Decreto nº 21.076 de 1932, representa um marco na conquista da cidadania para as mulheres. No entanto, a trajetória até essa formalização e os desafios subsequentes revelam um processo gradual e complexo, marcado por mobilizações sociais, debates intelectuais e barreiras persistentes. A data de 1932, embora fundamental, é apenas um capítulo em uma história de resistência e reivindicação de direitos políticos.

O movimento sufragista, que ganhou força em outros países a partir do século XIX, com pioneirismo na Nova Zelândia, Austrália e Finlândia, encontrou eco no Brasil. Intelectuais e ativistas brasileiras, inspiradas por ideias liberais e humanistas, iniciaram campanhas pela igualdade de gênero e pelo acesso das mulheres à esfera pública.

Figuras como Bertha Lutz, Leolinda Daltro e Nísia Floresta foram essenciais na articulação dessas demandas. Essas mulheres, em sua maioria de camadas médias urbanas e com formação intelectual, utilizaram a imprensa e a organização de entidades como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino para pressionar por mudanças legislativas.

Contextualizando as Conquistas e Resistências

A própria legislação brasileira, mesmo antes de 1932, já era alvo de disputas. A Constituição de 1891, ao referir-se a “cidadãos”, abria margens para interpretações restritivas quanto à participação feminina. Contudo, já em 1927, em Mossoró (RN), Celina Guimarães Vianna registrou-se como a primeira eleitora do país, demonstrando uma tensão pioneira com os limites legais vigentes.

Especialistas apontam que a conquista do voto, embora crucial, não removeu de imediato todas as barreiras à plena participação feminina. O Código Eleitoral de 1932 estabeleceu o voto facultativo para as mulheres, contrastando com a obrigatoriedade para os homens, e a exigência de alfabetização afetou um número significativo de eleitoras.

O Código Civil de 1916 também impunha restrições à autonomia feminina, impactando indiretamente sua capacidade de exercer plenos direitos políticos. Essas nuances legais e sociais mostram que a inserção das mulheres na vida pública foi um processo que demandou tempo e novas evoluções legislativas.

A obrigatoriedade do voto para ambos os sexos só foi implementada em 1965, e o alcance mais equitativo nas urnas, com a inclusão de analfabetos, aproximou-se a partir de 1985. Esses marcos temporais evidenciam a natureza evolutiva e não linear da ampliação dos direitos políticos femininos no Brasil.

A luta pela representatividade feminina na política vai além do direito ao voto. A conquista da igualdade jurídica é apenas o ponto de partida para desmantelar estruturas de poder e mentalidades que historicamente marginalizaram as mulheres.

Desafios Contemporâneos e o Caminho para a Igualdade

Atualmente, apesar de serem maioria no eleitorado, as mulheres ainda enfrentam sub-representação nos espaços de poder. Apenas cumprir as cotas mínimas de candidaturas femininas em partidos políticos, por exemplo, não garante uma representação substantiva e efetiva.

Pesquisadoras destacam que o recrutamento político para mulheres é mais desafiador, e a desigualdade na divisão de responsabilidades familiares e sociais ainda limita a visibilidade e a atuação política feminina. Esses fatores estruturais e institucionais criam desvantagens contínuas.

É fundamental compreender que a presença de mulheres eleitas não assegura, por si só, a defesa de pautas voltadas aos direitos das mulheres. A representação descritiva (a presença física de mulheres) e a representação substantiva (a atuação em prol de agendas femininas) nem sempre caminham juntas.

A efetivação da igualdade de gênero na política exige não apenas a manutenção e ampliação dos marcos legais, mas também uma profunda transformação nas mentalidades sociais e nas práticas institucionais. A busca por uma democracia verdadeiramente representativa e equitativa continua sendo um desafio constante.

A trajetória das mulheres na conquista e exercício do direito ao voto é um testemunho da persistência e da articulação social. Entender os obstáculos superados e os que ainda persistem é crucial para fortalecer a democracia e garantir a participação plena e igualitária de todas as cidadãs.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *