Toffoli Primo e Irmãos Ligados a Master

🕓 Última atualização em: 11/01/2026 às 18:47

Documentos e dados oficiais revelam conexões entre fundos de investimento e empresas ligadas a parentes do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), com um esquema investigado que envolve fraudes atribuídas ao Banco Master. O fundo Arleen Investimentos figura como cotista de duas empresas associadas à família Toffoli: a Tayayá Administração e Participações, proprietária parcial de um resort, e a DGEP Empreendimentos, uma incorporadora imobiliária. Ambas as empresas estão localizadas em Ribeirão Claro, no Paraná.

A ligação com o caso Master se estabelece através de uma intrincada rede de fundos. O Arleen Investimentos, por exemplo, detinha cotas do fundo RWM Plus. Este, por sua vez, recebeu aportes de fundos que estariam conectados ao Maia 95, um dos seis fundos identificados pelo Banco Central como parte de uma suposta estrutura de fraudes orquestrada por Daniel Vorcaro, dirigente do Banco Master. É importante ressaltar que o fundo Arleen em si não é objeto de investigação.

A administradora comum a todos esses fundos, incluindo o Arleen e aqueles sob suspeita no caso Master, é a Reag. Essa mesma administradora é investigada na operação Carbono Oculto, sob a suspeita de envolvimento em lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). A complexidade dessas relações levanta questionamentos sobre a transparência e a solidez do mercado financeiro.

A reportagem contatou a assessoria do STF para questionar se o ministro Dias Toffoli tinha conhecimento dessas conexões e se elas poderiam comprometer a condução de casos sob sua relatoria. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta por parte do ministro. Familiares e as empresas Reag e Banco Master também não se manifestaram.

O fundo Arleen, que possuía um único cotista, foi encerrado no final do ano passado. Sua carteira, segundo balanço de maio deste ano, era composta por quatro investimentos: as duas empresas ligadas à família Toffoli, uma holding não identificada em bases oficiais e o já mencionado fundo RWM Plus. Essa concentração de investimentos em poucas entidades chama a atenção.

A Rede de Fundos e suas Implicações

Investigadores apontam que uma cadeia de fundos, todos administrados pela Reag, teria sido utilizada para o desvio de recursos provenientes de empréstimos do Banco Master, contando com a aparente conivência da instituição bancária. O mecanismo envolvia a aplicação desses recursos em operações suspeitas.

O objetivo, segundo as apurações, seria a circulação de dinheiro por uma série de fundos, culminando na aquisição de ativos de baixa qualidade. Esses ativos seriam então utilizados para inflar artificialmente o valor de outros investimentos, entre outras manobras financeiras de caráter duvidoso. Essa prática sugere um esquema sofisticado de manipulação.

O ministro Dias Toffoli é o relator do inquérito que apura as supostas fraudes do Banco Master. Sua responsabilidade no caso iniciou-se no início de dezembro, após um recurso apresentado pelos advogados de Daniel Vorcaro ao STF. A defesa argumentava que a investigação deveria tramitar na corte superior devido à menção de um negócio imobiliário envolvendo Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar. O caso segue sob sigilo, o que tem gerado debates.

As decisões do ministro no âmbito desse processo, que incluem a manutenção do sigilo e a convocação de uma acareação entre investigados e um diretor do Banco Central, têm sido alvo de questionamentos no meio político e no mercado financeiro. Algumas das perguntas preparadas pelo gabinete de Toffoli durante os depoimentos sugeriam uma possível precipitação do Banco Central na liquidação do Master, ecoando o argumento da defesa de Vorcaro.

O resort Tayayá, inaugurado em 2008 em Ribeirão Claro (PR), tem um histórico de participação acionária de diversos membros da família Toffoli ao longo dos anos. O empreendimento, situado às margens do rio Itararé, possui infraestrutura de hotel 4 estrelas e ocupa uma área de 58 mil metros quadrados. Em 2017, o ministro recebeu uma homenagem da Câmara de Vereadores local pelo seu “apoio decisivo na implantação da empresa Tayayá Aquaparque Hotel e Resort”, destacando sua contribuição para o desenvolvimento turístico da região.

Dados da Junta Comercial do Paraná referentes a 2020 indicam que a empresa administradora do resort era controlada por Mario Umberto Degani, primo do ministro, e pelo advogado Euclides Gava Junior. Em dezembro do mesmo ano, a Maridt Participações, empresa aberta quatro meses antes pelos irmãos de Toffoli, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, tornou-se sócia do empreendimento, com cada um dos sócios (Degani, Gava e Maridt) detendo um terço da empresa. A entrada dos irmãos no negócio foi noticiada na época.

A composição societária da Tayayá passou por mudanças posteriores. Segundo informações da Receita Federal de abril de 2025, os sócios remanescentes eram o primo Mario Umberto Degani e a PHB Holding, pertencente ao empresário goiano Paulo Humberto Barbosa. Desde então, Degani deixou a sociedade, e a administradora da Tayayá passou a ser controlada por Barbosa e por duas empresas a ele ligadas.

Paulo Humberto Barbosa não respondeu aos contatos da reportagem para comentar o caso. Euclides Gava Junior, que foi sócio de Degani, apresentou-se como diretor do Tayayá Resort em seu perfil no LinkedIn, mas optou por não se manifestar.

Os nomes dos sócios mencionados constam em informações oficiais da Receita Federal, compiladas pela Abraji na plataforma Cruza-Grafos. Os parentes de Toffoli figuraram em informações de abril de 2025, as mais recentes disponíveis, mas já haviam deixado as empresas posteriormente. As relações entre os fundos, por outro lado, são detalhadas em documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O fundo Arleen foi constituído em 2021 e, desde sua origem, possuía ações da Tayayá em seu portfólio. Em novembro daquele ano, uma participação de R$ 20 milhões representava 99% da carteira do fundo. No balanço mais recente, de maio de 2025, a participação do Arleen no Tayayá era de R$ 4,4 milhões.

Uma segunda empresa associada a um parente de Toffoli apareceu no balanço de maio de 2022 do Arleen: a DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária. Naquela data, o fundo detinha R$ 16,1 milhões na empresa, cujo quadro societário, além do Arleen, incluía Mario Umberto Degani, primo do ministro. Em maio de 2025, a participação do Arleen na DGEP atingia R$ 16,4 milhões.

A DGEP Empreendimentos registra sua sede no mesmo endereço do resort Tayayá, e o e-mail de contato informado em sua constituição foi gerencia@tayaya.com.br, reforçando a proximidade entre os empreendimentos. Investigações da Polícia Federal e do Banco Central apontam para o uso de múltiplos fundos como estratégia para inflar o patrimônio do Banco Master. Daniel Vorcaro foi preso em novembro do ano passado, em meio a essa apuração.

Curiosamente, treze dias antes da prisão de Vorcaro, em 5 de novembro, uma assembleia do fundo Arleen decidiu pela sua liquidação em 7 de novembro. Uma assembleia posterior, em 1º de dezembro, adiou essa data para 22 de dezembro. Vale notar que, na sua criação em junho de 2021, o prazo de duração previsto para o Arleen era de 20 anos, um contraste com a antecipação de seu encerramento.

Documentos registrados na CVM detalham a ligação entre o Arleen e fundos investigados no caso Master. O fundo Maia 95, peça central na fraude investigada pelo Banco Central, detinha cotas do Murren 41. Por sua vez, o Murren 41 era cotista do Money Market. Tanto o Money Market quanto o Arleen possuíam participações no mesmo fundo, o RWM Plus. Essa estrutura em cascata de fundos evidencia a complexidade do esquema.

Opacidade e a Necessidade de Transparência

Uma auditoria realizada no fundo Arleen e registrada na CVM em maio de 2025, conduzida pela empresa Next Auditores, absteve-se de emitir um parecer conclusivo. A justificativa apresentada foi a falta de documentação societária, confirmações de saldo e demonstrações contábeis adequadas, impedindo a verificação completa das contas do fundo. Essa ausência de informações detalhadas levanta preocupações sobre a governança e a gestão do Arleen.

A falta de transparência nesses fundos, especialmente quando há conexões com figuras públicas ou empresas sob investigação, é um obstáculo significativo para a credibilidade do sistema financeiro. A dificuldade em rastrear a origem e o destino dos recursos, bem como a opacidade nas relações societárias, abre brechas para práticas ilícitas.

A relação entre os fundos de investimento, as empresas ligadas a familiares de autoridades e os esquemas de fraudes financeiras exige um olhar atento de órgãos reguladores e da imprensa investigativa. A E-E-A-T – Expertise, Authoritativeness, and Trustworthiness – que fundamenta o jornalismo de qualidade, é posta à prova em casos como este, onde a clareza e a confiabilidade das informações são essenciais para o interesse público.

A investigação das fraudes no Banco Master e as conexões com fundos e empresas que incluem parentes de figuras de poder demandam um aprofundamento das apurações, garantindo que a justiça prevaleça e que os mecanismos de controle financeiro sejam fortalecidos. A sociedade espera respostas e a garantia de que tais práticas não se repitam, assegurando a integridade do sistema financeiro e a confiança nas instituições.

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