O Brasil testemunhou, ao longo do século XX, um capítulo sombrio na história do cuidado em saúde mental. Milhares de pessoas foram internadas em instituições como o Hospital Colônia, em Barbacena (MG), muitas vezes por motivos que hoje não configurariam doença mental. Pobreza, desvio de comportamento, epilepsia ou simplesmente não se encaixar nos padrões sociais da época resultavam na perda de liberdade e, para muitos, na invisibilidade social e até na morte. Um levantamento detalhado aponta que mais de 60 mil indivíduos faleceram nessas condições, desmistificando a ideia de que todos eram acometidos por graves patologias psiquiátricas.
As condições relatadas nessas instituições eram precárias, marcadas pela desumanização. Ao serem internados, os indivíduos frequentemente tinham seus nomes, histórias e até mesmo cabelos removidos, em um processo que despojavasuas identidades. Dormir no chão, enfrentar fome e frio eram realidades comuns. Entre as décadas de 1960 e 1980, uma prática macabra envolvia a negociação de corpos de falecidos com faculdades de medicina, adicionando um elemento de exploração ao sofrimento.
Essa realidade, que remete a um “Holocausto Brasileiro”, não ocorreu em cenários de guerra, mas sim sob o véu do silêncio administrativo e da exclusão social. A jornalista Daniela Arbex documentou a amplitude dessa tragédia, revelando que uma vasta maioria dos internados não sofria de transtornos mentais, mas sim de estigma social e vulnerabilidade econômica.
A Virada da Reforma Psiquiátrica
Diante desse quadro, o país precisou confrontar sua própria história e reformular o modelo de atenção à saúde mental. A necessidade de garantir dignidade e cidadania para pessoas em sofrimento psíquico tornou-se imperativa. A Lei nº 10.216, promulgada em 2001 e conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, representou um marco legal e ético.
Esta legislação estabeleceu a prioridade do cuidado em liberdade, com foco no convívio social e na proteção contra abusos. A internação psiquiátrica passou a ser considerada um último recurso, e o modelo manicomial começou a ser substituído por uma rede de serviços comunitários, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Estes centros oferecem acompanhamento no cotidiano dos indivíduos, promovendo a reinserção social e o tratamento próximo à realidade de cada um.
O Brasil vinha de um cenário com centenas de hospitais psiquiátricos e mais de 100 mil leitos dedicados a esse tipo de cuidado. A mudança de paradigma significou uma reestruturação profunda, alinhada às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que desde 2009 preconiza a desinstitucionalização e o cuidado em unidades de saúde mais próximas à comunidade. Essa transição resultou na redução significativa de leitos psiquiátricos no Sistema Único de Saúde (SUS).
Em 2024, o estado do Paraná ainda mantém hospitais psiquiátricos, mas a internação, quando necessária, é vista como uma etapa temporária no processo de recuperação. A proporção de leitos psiquiátricos por habitante ainda é considerável na região Sul, com o Paraná apresentando um índice relevante, porém dentro de um novo contexto terapêutico.
A Humanização da Internação Psiquiátrica
Atualmente, hospitais psiquiátricos, como a Unidade Integrada de Crise e Apoio à Vida (UNIICA) em Curitiba, operam sob uma perspectiva humanizada. Instituições com décadas de história, que antes funcionavam com modelos mais rígidos, foram adaptadas para priorizar o bem-estar e a reintegração social dos pacientes. A UNIICA, com 134 leitos, atende pelo SUS e convênios, recebendo encaminhamentos de diversos pontos da rede de saúde.
O foco no acompanhamento social e psicológico é um diferencial. A equipe busca compreender a vida do paciente fora da unidade, fortalecendo vínculos familiares e planejando o retorno ao lar. A internação, que em média dura 30 dias, visa a estabilização do quadro clínico, mas também a reconstrução da autonomia e da autoestima. Atividades terapêuticas, de lazer e de convivência são essenciais para esse processo de recuperação.
A abordagem terapêutica é multifacetada, combinando atendimentos individuais e em grupo. A Terapia Ocupacional, por exemplo, desempenha um papel crucial, promovendo atividades manuais, expressivas e de autocuidado que auxiliam na reorganização da rotina e no resgate da identidade. A construção de vínculo com a equipe é o primeiro passo para que o paciente se sinta seguro e engajado no seu próprio tratamento.
Para muitos pacientes, a internação é uma necessidade complexa, uma experiência desafiadora tanto para o indivíduo quanto para a família. O ambiente da UNIICA, por exemplo, estimula a autonomia, contrastando com a imagem tradicional do paciente restrito ao leito. Profissionais como a terapeuta ocupacional Alana Skavinski relatam a importância de observar a evolução dos pacientes e o aprendizado que essa troca proporciona. O depoimento de ex-pacientes, como Leonardo Silva*, reforça o impacto positivo de um tratamento focado na reestruturação da vida, na autoestima e na retomada de metas.






