A inauguração da Ponte de Guaratuba, aguardada há décadas pela população e pelos frequentadores do litoral paranaense, marca o fim de uma era para a travessia entre Matinhos e Guaratuba. Com a nova estrutura viária, que tem previsão de abertura para o dia 29 de abril, o serviço de ferryboat, que operou por 66 anos, encerrará suas atividades regulares.
Apesar dos inconvenientes que o serviço por vezes apresentou, como longas filas durante a alta temporada, o ferryboat se tornou um símbolo de ligação entre os municípios e parte da história local. O serviço, que opera com seis embarcações, transportava em média 1,3 milhão de veículos anualmente.
A trajetória do ferryboat remonta a 1960, quando o governador Moisés Lupion implementou a primeira embarcação. Era um barco de madeira com 27 metros de comprimento e 10 de largura, impulsionado por dois motores GM de 130 cavalos. Capaz de transportar dez automóveis e um caminhão leve, a embarcação pioneira já contava com comodidades como sanitário a bordo e um espaço para pernoite e alimentação para a tripulação.
## Impactos Ambientais e a Nova Era
A construção da Ponte de Guaratuba não apenas trará agilidade ao tráfego, mas também representa um avanço significativo na preservação ambiental da região. Estudos ambientais realizados durante o planejamento da ponte identificaram que a intensa atividade do ferryboat gerava um considerável impacto sonoro subaquático na baía.
Este ruído antropogênico, originado pela operação das embarcações, é um fator de grande relevância que afeta diretamente o comportamento e a saúde de animais marinhos, especialmente os cetáceos, como golfinhos e botos. Relatórios de monitoramento de fauna indicaram uma drástica redução na população de botos-cinza na baía ao longo dos anos, um declínio que pode ser correlacionado com o aumento do fluxo de embarcações na travessia.
Durante as campanhas de monitoramento, foram registrados níveis de ruído subaquático expressivos, compatíveis com o que se espera de atividades intensas. Esses níveis sonoros elevados podem desencadear o deslocamento de populações de golfinhos e botos para longe de suas áreas habituais de alimentação e reprodução, comprometendo a dinâmica populacional dessas espécies. A expectativa é que a eliminação desse fator de perturbação promova a recuperação do ecossistema.
A eliminação da operação do ferryboat também beneficiará outras espécies que habitam a baía de Guaratuba, como tartarugas marinhas e diversas variedades de peixes. A expectativa é que a redução do ruído e da poluição sonora contribua para a melhoria das condições ambientais, facilitando a alimentação, a reprodução e o descanso desses animais. A baía, antes marcada pelo tráfego constante de embarcações, agora se abre para um futuro com maior equilíbrio ecológico.
Com a nova infraestrutura, a ligação entre os municípios se tornará mais eficiente e segura, simbolizando o progresso e a evolução das obras públicas no litoral paranaense. A ponte não é apenas um marco de engenharia, mas também um símbolo da busca por um desenvolvimento que harmonize a infraestrutura com a sustentabilidade. O encerramento das atividades do ferryboat, após mais de seis décadas de serviço, abre caminho para a revitalização e a preservação ambiental, beneficiando a fauna marinha e a qualidade de vida da região.
O Legado da Travessia
O ferryboat, apesar de sua natureza funcional, carregava consigo um valor sentimental para muitos paranaenses. Por 66 anos, a travessia marítima foi um ritual para veranistas e moradores, marcada por despedidas e reencontros. A empresa responsável pelo serviço expressou em suas redes sociais a gratidão pelas memórias construídas durante esse período.
A postagem destacou que o pôr do sol na travessia de Guaratuba transcendia o simples ato de se deslocar, tornando-se um cenário para a vida, para rotinas e para histórias. A despedida do ferryboat, embora inevitável diante do avanço da infraestrutura, evoca uma nostalgia por aqueles que viveram a experiência e a consideram parte de sua identidade regional.
O contrato emergencial que manteve o serviço em operação, firmado com a empresa Internacional Marítima, tem seu fim previsto com a inauguração da ponte. O Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR) informou que os funcionários envolvidos na operação poderão ser realocados para outras atividades da empresa, assegurando uma transição que visa minimizar os impactos sociais diretos.
A história do acesso a Guaratuba por terra, antes da ponte, é uma jornada que remonta a tempos em que a única alternativa era um longo percurso por Santa Catarina. O ferryboat representou, por décadas, a solução mais direta e prática para conectar as regiões, totalizando um trânsito de cerca de 40 milhões de veículos ao longo de sua operação. Esse volume de tráfego atesta a importância fundamental do serviço para a mobilidade no litoral paranaense.





