O bairro Riviera, localizado na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), revela-se como um reduto de história e tradição, abrigando a menor população entre os 75 bairros da capital paranaense, com apenas 442 habitantes, conforme dados do Censo de 2022. Fundado a partir de assentamentos de imigrantes poloneses no final do século XIX, o local preserva paisagens que remetem a um ambiente rural, contrastando com a urbanização acelerada de outras regiões da cidade.
A origem do Riviera remonta à Colônia Riviére, estabelecida em 1876 e oficializada dois anos depois, às margens da antiga estrada do Mato Grosso. A denominação foi uma homenagem ao engenheiro Henrique Riviére, reconhecendo seus méritos no processo de colonização da província.
A fundação das colônias polonesas, incluindo a Riviera, foi um projeto do Império do Brasil, sob o comando de Dom Pedro II. Em 1880, o imperador e sua família realizaram uma visita ao Paraná, com o intuito de verificar o progresso e a adaptação dos colonos.
Embora a comitiva imperial tenha visitado outras colônias em Curitiba, como Santa Cândida e Bairro Alto, a Riviera não esteve diretamente em seu roteiro. No entanto, a comunidade polonesa em peso, incluindo os habitantes da Riviera, deslocou-se até a Praça 19 de Dezembro para recepcionar o imperador e sua comitiva.
Um grupo notável de 21 jovens, trajando vestes brancas, organizou uma recepção calorosa, erguendo cartazes e saudando o casal imperial. Essas jovens representavam diversas colônias, demonstrando a abrangência da colonização polonesa na região e a importância daquele momento.
Resiliência Cultural e Vida Cotidiana
Vicente Ales, morador mais antigo do bairro, com 77 anos, é um guardião vivo da memória local. Sua vida se confunde com a história do Riviera, onde nasceu e cresceu, mantendo a ligação com as tradições que moldaram a comunidade.
Ele recorda com carinho de Antônia Rompa Pepinsky, falecida recentemente aos 100 anos, que foi sua “babá” e uma figura respeitada por toda a família. Essa relação interpessoal demonstra a forte teia de afeto e cuidado que caracterizava os primórdios do bairro.
A agricultura foi a espinha dorsal da economia familiar de Vicente e de muitos outros moradores. O cultivo de feijão, milho e batata era uma atividade árdua, que apesar das boas colheitas, nem sempre se traduzia em retornos financeiros satisfatórios, devido à baixa precificação dos produtos.
A produção de queijo artesanal também representou uma importante fonte de renda. A família Ales criava gado leiteiro e fornecia seus produtos para estabelecimentos comerciais em Curitiba, como o supermercado colonial da família Kaminski, atendendo às exigências sanitárias da época.
Atualmente, a paisagem da propriedade de Vicente é marcada por uma extensa plantação de milho, um legado de seu pai, Francisco Ales, que cobrindo três alqueires de terra, ainda simboliza a conexão com a terra.
A música era outra paixão herdada de seu pai e tio, que resultou na formação da Banda Gaideski. Composta por membros da família Ales, o grupo animava eventos sociais como bailes e casamentos, interpretando canções populares da época.
A vida comunitária se manifesta atualmente através das missas quinzenais na Capela Nossa Senhora de Fátima e das reuniões na mercearia de Maria Gertrudes Laskoski, que preserva a tradição de encontros festivos.
A capela, erguida há 24 anos, foi um empreendimento comunitário, um reflexo da fé e da união dos moradores para a construção de um espaço de oração acessível.
As sextas-feiras adquiriram um significado especial para os moradores, com a cozinha de dona Gertrudes operando com pratos típicos preparados pelo seu marido, como quirera com suã de porco e mocotó, resgatando iguarias da culinária tradicional.
A mercearia e a cozinha de Gertrudes são anexas à sua residência, construída em 1962 na Rua Felício Laskoski, homenageando seu avô, um dos pioneiros do bairro, evidenciando a força das tradições familiares na região.
A subsistência no Riviera era historicamente garantida pela agricultura, com parte da produção sendo destinada à venda em feiras livres na capital. Essa atividade, aliada à criação de animais, como porcos, galinhas, vacas e cavalos, era compartilhada entre os irmãos Laskoski desde a infância, sem descuidar dos estudos.
A trajetória escolar dos filhos de Onofre Laskoski iniciou-se na escola do Passaúna e prosseguiu no Colégio Santo Antônio de Orleans, uma instituição com mais de um século de existência, fundada por imigrantes poloneses no início do século XX.
A Igreja Santo Antônio de Orleans, fundada em 1879 por imigrantes poloneses, guarda um tesouro histórico: dois sinos do período imperial, doados por Dom Pedro II. Em 2023, o templo recebeu iluminação cênica para realçar sua arquitetura histórica.
Gertrudes Laskoski, assim como seus irmãos, optou por permanecer em seu bairro natal, valorizando a qualidade de vida e a tranquilidade que o Riviera oferece. A infraestrutura de transporte público e a melhoria das vias públicas têm contribuído para o bem-estar dos moradores.
Atualmente, a comunidade busca a extensão da linha de ônibus Riviera até a empresa Tegape Telas, visando facilitar o deslocamento de trabalhadores e atender às demandas crescentes.
A mudança gradual no perfil dos moradores é percebida por Gertrudes, que observa a chegada de novas famílias. Essa transformação, embora vista com certa cautela, é compreendida como um reflexo natural das dinâmicas sociais e urbanas.
A herança de terrenos e a venda de propriedades por herdeiros têm atraído novos habitantes, diversificando a composição social do bairro, o que gera uma percepção de distanciamento em relação à proximidade característica dos tempos antigos.
Perspectivas e Desafios Futuros
O bairro Riviera se encontra em uma encruzilhada, onde a preservação de suas raízes históricas e culturais se mescla à necessidade de adaptação às mudanças urbanas e demográficas. A manutenção da identidade de um dos menores bairros de Curitiba dependerá da forma como a comunidade e as políticas públicas lidarão com esses desafios.
A valorização do patrimônio histórico, a integração dos novos moradores e a continuidade do desenvolvimento da infraestrutura local são fatores cruciais para garantir um futuro sustentável e que honre a memória dos primeiros colonizadores. A resiliência cultural, demonstrada ao longo de mais de um século, sugere que o Riviera continuará a ser um local de significado e pertencimento para seus habitantes.






