Paraná revoluciona tratamento medular com polilaminina

🕓 Última atualização em: 24/02/2026 às 20:06

Um hospital universitário no Paraná utilizou o medicamento experimental polilaminina em um paciente de 23 anos com trauma raquimedular grave. A aplicação ocorreu em caráter de uso compassivo, um mecanismo regulatório que permite o acesso a terapias ainda em fase de pesquisa, mediante critérios rigorosos e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O jovem sofreu um acidente que resultou em lesões nas vértebras T3 e T4. Após uma cirurgia inicial para descompressão e tratamento de ruptura vertebral, a equipe médica avaliou que o paciente preenchia os requisitos para receber o tratamento inovador.

A polilaminina é uma substância em desenvolvimento pelo Laboratório Cristália, fruto de pesquisas lideradas pela bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O foco terapêutico é auxiliar na reconexão neural após lesões na medula espinhal.

O neurocirurgião Lázaro de Lima, da Unioeste, destacou a análise criteriosa para a indicação do medicamento. “Após a estabilização, identificamos que ele possuía os critérios necessários. Documentamos tudo e solicitamos à Anvisa a liberação para uso compassivo”, explicou.

Lesões na medula espinhal, especialmente na região torácica superior como a T3, podem levar à perda significativa de funções motoras e sensitivas nos membros inferiores e tronco, afetando drasticamente a autonomia do indivíduo.

Potencial regenerativo da polilaminina

A polilaminina atua como uma matriz biológica projetada para criar um ambiente favorável à regeneração das fibras nervosas. Seu objetivo é facilitar a reconexão de axônios danificados, um processo crucial para a recuperação neurológica.

A intervenção precoce é um fator determinante em lesões medulares agudas. Em estágios iniciais, a formação de fibrose (cicatrizes que dificultam a regeneração) ainda é limitada, configurando uma janela biológica de oportunidade.

Arthur Luiz Freitas Forte, médico integrante da equipe de pesquisa, enfatizou a transparência com o paciente e familiares. “Informamos que o medicamento está em fase inicial de estudo e que se trata de uma possibilidade científica, não de uma promessa de cura”, ressaltou.

A equipe médica reiterou que o paciente receberá acompanhamento clínico intensivo, incluindo reabilitação multiprofissional, fisioterapia, avaliações neurológicas e monitoramento de possíveis respostas motoras.

Sinergia entre assistência, ensino e pesquisa

Marcius Benigno M. dos Santos, coordenador do curso de Medicina da Unioeste, celebrou a integração de atividades no hospital universitário. “Aqui, conseguimos unir assistência, ensino e pesquisa. A participação em estudos como este enriquece a formação dos nossos médicos”, afirmou.

O diretor geral do HUOP, Rafael Muniz de Oliveira, destacou o papel pioneiro da instituição. “O HUOP tem sido protagonista em diversas ações, desde a pandemia da Covid-19 até a aplicação da polilaminina. Buscamos recursos científicos para beneficiar nossos pacientes e a região, com apoio da Secretaria de Saúde do Estado”, declarou.

A polilaminina é derivada da laminina, uma proteína natural do corpo humano essencial para o crescimento de axônios neuronais. Sua aplicação experimental visa restaurar a continuidade dessas fibras nervosas após danos na medula espinhal.

A Anvisa autorizou o início de estudos clínicos de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em traumas raquimedulares agudos. Pesquisas preliminares, como um estudo da UFRJ com oito pacientes, têm demonstrado resultados animadores, impulsionando a investigação científica.

Caso as fases de desenvolvimento clínico sejam bem-sucedidas, a polilaminina poderá passar por processo de registro sanitário para futura comercialização, representando um avanço promissor no tratamento de lesões medulares.

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