A era dos telefones de uso público (TUPs), popularmente conhecidos como orelhões, está oficialmente chegando ao fim no Brasil. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) confirmou que a desativação completa de todos os orelhões está prevista para ocorrer até o final de 2028. Essa decisão marca o encerramento de uma infraestrutura de comunicação que foi fundamental por décadas.
Inicialmente, a manutenção dessa rede era uma contrapartida obrigatória para as empresas concessionárias de telefonia fixa. Contudo, os contratos de concessão que estabeleciam essa obrigação, firmados em 1998, chegaram ao seu termo em dezembro de 2025. Com o fim desses acordos, as operadoras – Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefonica – não possuem mais o respaldo legal para arcar com os custos de manutenção da infraestrutura.
A remoção dos aparelhos não será um processo uniforme em todo o território nacional. A Anatel orienta que os orelhões só permanecerão em operação em localidades que ainda não possuem cobertura de sinal 4G para redes móveis. A justificativa é garantir um mínimo de acesso à comunicação por voz para populações em regiões com menor infraestrutura tecnológica.
O declínio progressivo e a transição tecnológica
O número de orelhões no Brasil já sofreu uma drástica redução ao longo dos anos. No início de 2020, o país ainda contava com mais de 202 mil terminais ativos. Atualmente, esse número caiu para menos de 33 mil unidades em funcionamento, com uma parcela adicional de cerca de 4.834 orelhões classificados como “em manutenção”. Essa diminuição reflete a rápida expansão da telefonia móvel e a consequente menor dependência dos telefones públicos.
A rede de orelhões teve seu auge em um período em que o acesso à telefonia fixa era restrito e a posse de telefones celulares era um privilégio. Criada originalmente em 1972, a iniciativa de design icônico, atribuída à arquiteta Chu Ming Silveira, visava democratizar o acesso à comunicação em larga escala. A sua arquitetura distintiva se tornou um símbolo visual do cenário urbano brasileiro.
A transição para a aposentadoria dos orelhões está diretamente ligada à evolução tecnológica e às mudanças nos padrões de uso da comunicação. Com a ubiquidade dos smartphones e a cobertura crescente das redes de dados móveis, a necessidade dos telefones públicos diminuiu significativamente, tornando sua manutenção economicamente insustentável e tecnologicamente obsoleta em muitas áreas.
O futuro da comunicação e o legado dos orelhões
Embora o número de orelhões ativos seja hoje residual em comparação com o passado, a sua existência ainda é relevante em certas comunidades. A retirada gradual desses aparelhos levanta questões sobre o acesso à comunicação em locais remotos ou para populações de baixa renda que podem ainda depender desses serviços. A Anatel, no entanto, assegura que as empresas se comprometeram a manter o serviço de voz em regime privado, utilizando quaisquer tecnologias disponíveis, até o prazo final estabelecido.
Apesar do fim iminente, a consulta a dados da Anatel revela que alguns estados ainda concentram um número considerável de orelhões. São Paulo lidera, seguido por Bahia, Maranhão, Pará e Amazonas. Estados como Paraná, Minas Gerais e Ceará também figuram na lista de concentrações mais significativas, embora em menor escala. A consulta pública no site da Anatel permite verificar a localização e o status dos orelhões remanescentes.
O legado dos orelhões transcende a sua função comunicacional. Eles representam um período importante da história social e tecnológica do Brasil, moldando a paisagem urbana e as interações sociais. Sua retirada marca o fim de um capítulo, mas a sua memória permanece como um testemunho da evolução contínua das formas como nos conectamos.






