O bairro Umbará, na capital paranaense, com seus 22,47 km², configura-se como o segundo maior em extensão territorial de Curitiba. Abriga atualmente uma população de 21.990 habitantes, conforme os dados censitários mais recentes. A história local remonta ao início do século XIX, com a presença de barricarias dedicadas à produção de barris, insumos essenciais para o armazenamento da erva-mate, um produto que impulsionava a economia da região na época. A vida dos primeiros moradores era marcada pela labuta no campo, complementada pela subsistência agrícola e pecuária, elementos cruciais para a alimentação e a geração de renda familiar.
Em meio a essas rotinas desafiadoras, também havia espaço para momentos de descontração e afeto. Dona Brígida Moletta, com seus 97 anos e residente no bairro, recorda com carinho de um tempo em que um bugio, um primata do gênero Alouatta, convivia pacificamente com a família, tornando-se um companheiro inseparável nos dias mais leves.
Essa convivência harmoniosa, mesmo em meio à dureza da vida rural, evidencia a forte ligação dos moradores com a natureza e a capacidade de encontrar alegria nas pequenas coisas. O relato de dona Brígida sobre o bugio, que frequentava até a cozinha da casa, ilustra um cotidiano onde a linha entre o selvagem e o doméstico se tornava tênue, moldado pela proximidade e pelo afeto.
A proximidade com a natureza era uma constante, e a própria geografia do bairro, embora distante dos centros urbanos, oferecia cenários bucólicos. A família Moletta, conhecida pela sua tradição e pela famosa decoração natalina que atrai milhares de visitantes, mantém vivas as memórias de um tempo em que a vida rural ditava o ritmo do Umbará. Essa tradição familiar, que se perpetua através de gerações, demonstra a força dos laços comunitários e a importância da preservação da memória.
Da necessidade à memória: a evolução do Umbará
A distância dos centros urbanos impunha desafios significativos aos habitantes do Umbará. Dona Brígida relata que, para adquirir seu vestido de noiva, precisou percorrer 12 quilômetros até o bairro Portão, de onde pegava o bonde para chegar ao Centro da cidade, único local com estabelecimentos comerciais adequados. Essa realidade, marcada pela escassez de infraestrutura, como a falta de iluminação e os caminhos intransitáveis em dias chuvosos, moldou a vida dos pioneiros.
A dificuldade de acesso a bens e serviços essenciais era um obstáculo comum. O relato de Dona Brígida sobre caminhar descalça e carregar os sapatos em uma sacola até lavar os pés em um riacho antes de calçá-los para ir à igreja é emblemático dessa realidade. Essa saga cotidiana, muitas vezes resumida na expressão popular de origem italiana e polonesa “um barrão” (um barro só), reflete a persistência e a resiliência dos moradores.
Apesar da forte crença popular associar o nome do bairro à condição de suas estradas, a etimologia de Umbará revela origens distintas e mais profundas. O historiador Marcos Zanon, especialista na região, desmistifica a teoria do “barro”, apresentando a versão indígena como a mais fidedigna.
Segundo Zanon, a palavra “Umbará” deriva de uma língua falada pelos primeiros habitantes, oriundos da mineração no litoral. Essa língua, de origem tupi, possui termos que dão nome a muitos logradouros de Curitiba, incluindo a própria capital, cujo significado em tupi remete a “muito pinheiro”. No caso específico de Umbará, o nome está associado ao fruto vermelho silvestre, em sua fase de maturação. Essa etimologia, embora menos difundida, é respaldada por estudos históricos e documentos antigos.
A persistência da versão popular, porém, não é surpreendente. Ao longo do tempo, narrativas alternativas tendem a se consolidar no imaginário coletivo, especialmente quando ligadas a elementos visíveis e cotidianos, como a condição do solo. A memória afetiva e as explicações mais acessíveis frequentemente se sobrepõem a complexas análises etimológicas, tornando a história oral um campo rico e multifacetado.
O registro visual da paisagem do Umbará, capturado em 1983 por Marcos Zanon, com apenas 16 anos, utilizando uma câmera emprestada e um jeep, é um testemunho valioso da evolução do bairro. As imagens da Rua Nicola Pellanda revelam um mosaico arquitetônico, onde residências antigas dividem espaço com construções mais modernas e pequenas chácaras cercadas por áreas verdes, oferecendo um vislumbre da transição urbana em curso.
Raízes e Memória: A Construção do Umbará
A formação do Umbará é intrinsecamente ligada à ocupação espontânea e à chegada de diferentes grupos étnicos, que moldaram a identidade e a economia local. O documento mais antigo que cita o bairro data de 1832, mas a presença de moradores remonta ao início do século XIX. As primeiras famílias brasileiras a se estabelecerem na região possuíam sobrenomes como Cruz, Lima e Gomes.
Posteriormente, imigrantes italianos e poloneses migraram para o Umbará, muitos deles oriundos de outras áreas de Curitiba. Esses novos colonos adquiriram terras dos chamados “caboclos” e integraram-se à próspera economia da erva-mate, atuando em todas as etapas da cadeia produtiva: desde o fornecimento da matéria-prima até o processo de sapeco (secagem), moagem e produção de barris. A erva-mate foi, durante décadas, um motor fundamental para o desenvolvimento do Paraná e de Curitiba.
A vinda da família Wosniak, em 1919, à região, foi motivada pela fé. Dona Bronislava Wosniak e seu marido, Jacob, deixaram Fazenda Rio Grande em busca de maior proximidade com a igreja do Umbará, onde dona Bronislava gostava de frequentar as missas. A dificuldade de locomoção de carroça, especialmente em dias chuvosos, os impulsionou a adquirir um terreno mais próximo ao templo.
A terra argilosa, característica do bairro e que originou a crença popular sobre o nome “Umbará”, também desempenhou um papel crucial na história da família Wosniak, desta vez através da indústria cerâmica. Daniel Wosniak, neto de Dona Bronislava, deu continuidade a um empreendimento familiar iniciado por seu pai em 1947, fundando a Cerâmica Beira Rio em 1967. Apesar das dificuldades iniciais, operando com métodos artesanais em comparação com os concorrentes motorizados, a persistência e a qualidade do produto levaram a cerâmica ao sucesso, fornecendo tijolos para importantes construções na cidade.
A trajetória de Daniel Wosniak, que começou puxando barro com uma carroça e hoje vê seus negócios operarem em ritmo mais lento devido às condições econômicas do país, reflete as transformações pelas quais o Umbará passou. Ele descreve a vida no bairro em suas origens como uma comunidade unida, onde todos se conheciam e colaboravam, com atividades sociais concentradas em futebol, festas e bailes.
Por outro lado, a figura de Dona Maria de Lourdes Pelanda, 91 anos, representa a memória viva de um Umbará que se reinventou. Originária do bairro, ela se tornou uma referência comunitária, conhecida por sua habilidade em aplicar injeções e por sua coragem em preparar os falecidos para velórios. Esses serviços, prestados com dedicação e empatia, solidificaram seus laços com a comunidade e a tornaram uma figura essencial em momentos de necessidade e luto.
A evolução do Umbará, de uma área rural com infraestrutura precária a um bairro com asfalto e iluminação, é visível. Dona Maria Lourdes, residente em um casarão histórico construído pelo pai adotivo em 1934, expressa profundo amor pelo local, declarando que não o trocaria por nada. Esse sentimento de pertencimento, compartilhado por muitos moradores, é o que sustenta a identidade do bairro.
O amor pela terra e a união das famílias foram os pilares da formação do Umbará. Dona Brígida Moletta relembra a solidariedade presente em mutirões para colheitas e a alegria dos bailes que celebravam o ciclo da erva-mate. A construção da Igreja Matriz São Pedro, um marco arquitetônico projetado por João de Mio e com a participação de Irineu Samuel Moletta na edificação da torre, é um exemplo concreto dessa união comunitária. Da mesma forma, a criação do Colégio Estadual Padre Cláudio Morelli (atual nome) representou um avanço fundamental para a educação formal na região.
A tradição agrícola, embora em menor escala, ainda se manifesta, como no caso das parreiras centenárias da família Moletta, que anualmente produzem uvas destinadas à fabricação de vinho. Essa prática, que une geração e celebração, reforça os laços familiares e a conexão com as raízes do bairro. O Umbará, portanto, é um mosaico de histórias, onde a terra, a fé, o trabalho e a comunidade se entrelaçam para contar a saga de um bairro que, apesar das adversidades, floresceu.






