Médicos alertam riscos trânsito

🕓 Última atualização em: 09/03/2026 às 08:10

A segurança no trânsito, um pilar fundamental para a saúde pública, tem sido objeto de constante debate e aprimoramento de políticas. Estudos recentes, como os compilados pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), reforçam que a velocidade, mesmo com aumentos aparentemente marginais, tem um impacto desproporcional na gravidade e letalidade dos acidentes. Essa premissa ganha contornos ainda mais relevantes diante de recentes alterações normativas que flexibilizam processos relacionados à habilitação de condutores, como a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

A energia cinética em uma colisão aumenta exponencialmente com a velocidade. Essa energia, quando excede a capacidade fisiológica de absorção do corpo humano, resulta em lesões graves e fatalidades. Essa relação é particularmente crítica para os chamados usuários vulneráveis das vias, como pedestres, ciclistas e motociclistas, que possuem menor proteção em caso de impacto.

A velocidade de circulação de um veículo está diretamente ligada à energia transferida em um sinistro. Estimativas apontam que, em colisões envolvendo pedestres e ciclistas, cerca de 90% da energia transferida ao corpo da vítima advém da velocidade do veículo causador do impacto.

A Abramet, em seu documento “Tolerância Humana a Impactos: implicações para a segurança viária”, consolida dados científicos que alertam para os limites biomecânicos do corpo humano. Essas diretrizes buscam embasar políticas públicas que priorizem a vida e a integridade física de todos os usuários das vias.

A ciência por trás da velocidade e seus riscos

A correlação entre velocidade e letalidade não é linear. Pequenas reduções na velocidade permitida podem acarretar quedas significativas no risco de morte, enquanto incrementos aparentemente modestos podem elevar drasticamente a probabilidade de desfechos fatais ou com sequelas permanentes.

Pesquisas indicam que um aumento de apenas 5% na velocidade permitida em uma via pode resultar em um aumento de até 20% no número de mortes. Este dado sublinha a importância de políticas de gestão de velocidade baseadas em evidências científicas e na proteção da vida.

Ademais, a diretriz da Abramet chama a atenção para o aumento da frota de veículos como SUVs, com suas frentes elevadas. Esses veículos estão associados a um risco maior de lesões fatais em pedestres e ciclistas, mesmo quando circulam em velocidades consideradas moderadas.

O impacto da velocidade é um fator que transcende a engenharia de tráfego e o comportamento individual. Ele se insere no campo da biologia e da fisiologia humana, onde os limites de tolerância a impactos são um dado concreto e inegociável para a segurança.

A renovação da CNH e a saúde do condutor

Paralelamente a essas discussões sobre a segurança viária intrínseca à velocidade, a recente regulamentação da renovação automática da CNH traz à tona a questão da aptidão do condutor. A Medida Provisória que flexibiliza esse processo, especialmente para motoristas com bom histórico de infrações, levanta preocupações sobre a avaliação contínua das condições de saúde para dirigir.

A Abramet reitera que a aptidão para conduzir um veículo não é um estado imutável. Condições de saúde como o envelhecimento natural, doenças neurológicas ou cardiovasculares, distúrbios do sono, além de sequelas de traumas, podem afetar significativamente a capacidade de reação e a tolerância a impactos.

É crucial reconhecer que a avaliação médica periódica, realizada por profissionais qualificados como os médicos do tráfego, desempenha um papel essencial na identificação dessas condições. Essa avaliação permite uma análise individualizada do risco, considerando a idade, o estado de saúde e a exposição a diferentes cenários de perigo no trânsito.

A diretriz da associação médica defende que a conveniência administrativa ou a fluidez de processos não devem se sobrepor à segurança. A decisão sobre a renovação da CNH, especialmente em casos que envolvem condições de saúde específicas, necessita de uma análise criteriosa que considere os limites fisiológicos do condutor.

Considerações finais e o caminho para a segurança

A integração de dados científicos, como os apresentados pela Abramet, com as políticas públicas de trânsito é fundamental. A velocidade, quando mal gerida, torna-se um fator de risco proeminente, e as recentes medidas de renovação automática da CNH exigem atenção redobrada quanto à avaliação da capacidade de condução.

É imperativo que as decisões administrativas no trânsito considerem não apenas a fluidez e a economia de custos, mas, primordialmente, a proteção da vida humana. A ciência biomecânica e médica oferece um arcabouço robusto para fundamentar leis e regulamentos mais seguros.

A sociedade civil, as instituições de ensino e os gestores públicos devem trabalhar em conjunto para promover uma cultura de segurança viária. Isso inclui a implementação de limites de velocidade adequados, campanhas educativas contínuas e o fortalecimento dos mecanismos de avaliação de aptidão para dirigir.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *