A erosão costeira e a ação do tempo transformaram a paisagem do litoral paranaense, gerando cenários dramáticos como a vila de Ararapira, que vê parte de sua história ser literalmente engolida pelo mar. Essa comunidade, outrora um promissor entreposto comercial nos séculos XVIII e XIX, hoje luta pela sobrevivência com menos de 20 famílias, testemunhando o avanço implacável das águas.
A vila de Ararapira, pertencente ao município de Guaraçaba, guarda em sua igreja, a de São José do Ararapira, erguida por volta de 1767, um elo com seu passado. Fundada oficialmente em 1776, foi um dos primeiros núcleos de colonização do litoral brasileiro, chegando a abrigar cerca de 500 famílias. A festa anual de São José, celebrada em março, ainda mantém viva a tradição local.
No entanto, a história de Ararapira ganhou contornos de tragédia. A transferência de suas terras do governo de São Paulo para o Paraná em 1920 impulsionou a migração de moradores. A abertura do Canal do Varadouro, embora facilitasse a navegação, intensificou a erosão, fazendo com que casas fossem engolidas pelo oceano, conferindo à vila o apelido de “fantasma”.
A persistência da vida em meio às mudanças naturais
Apesar do avanço do mar, a região próxima ao Canal do Varadouro e à divisa com São Paulo ainda abriga a Barra do Ararapira. Esta comunidade, conhecida pela produção da cachaça de cataia, exibe um cenário cinematográfico de dunas, mar e natureza exuberante, com um rio desaguando no oceano, uma formação recente moldada pelas marés.
Localizada entre o Parque Nacional de Superagui e o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o acesso à Barra do Ararapira é exclusivamente marítimo. A proximidade com Ariri, acessível por estrada de chão, é o ponto continental mais próximo. As praias, nesse trecho, permanecem em sua maioria desertas, preservando a beleza intocada da costa.
A importância histórica e a viabilidade turística do Canal do Varadouro
A trajetória do Canal do Varadouro remonta à época colonial, quando Paranaguá e Cananéia eram portos estratégicos. A rota marítima era a mais segura, mas o istmo de Superagui criava um obstáculo. Embarcações precisavam ser arrastadas por terra, um processo conhecido como “varadouro”, que tornava as viagens árduas e demoradas.
Moradores locais iniciaram a escavação manual do canal já em 1820, visando eliminar o “varadouro” e otimizar o trajeto. Contudo, foi somente em 1942, com a definição territorial do istmo como pertencente ao Paraná, que a obra ganhou impulso, culminando em sua inauguração entre 1952 e 1953. Com aproximadamente seis quilômetros de extensão, o canal contribuiu para a formação da Ilha de Superagui.
Com o avanço do transporte rodoviário, o Canal do Varadouro perdeu sua relevância comercial, mas encontrou um novo propósito no turismo e em atividades esportivas. A sua abertura revelou uma rica biodiversidade, incluindo restingas, manguezais e fragmentos da Mata Atlântica, além de praias isoladas de grande beleza cênica.
Um projeto recente visava modernizar o canal, ampliando sua largura para 30 metros em alguns trechos e realizando dragagem para atingir 2,4 metros de profundidade. A iniciativa incluía a instalação de sinalização náutica e a construção de estruturas de apoio. O governo paranaense argumentava que a obra facilitaria a vida das comunidades ribeirinhas e impulsionaria o turismo de base comunitária.
No entanto, o projeto enfrentou resistência. Em abril do ano passado, o Ibama vetou o pedido de dragagem, citando o risco de impacto ambiental. O ICMBio ressaltou que intervenções diretas em unidades de proteção integral, como o Parque Nacional do Superagui, são proibidas. A obra atravessaria áreas sensíveis, como manguezais e remanescentes da Mata Atlântica, levantando preocupações sobre a preservação desses ecossistemas.





