Em Curitiba, histórias de superação e resiliência marcam o cotidiano de diversas mulheres, que, mesmo diante de desafios significativos, trilham seus caminhos com determinação. De reescrever trajetórias acadêmicas a quebrar barreiras em campos historicamente dominados por homens, e de recomeçar a vida em um novo país, esses exemplos demonstram a força feminina em suas múltiplas facetas.
A jornada de Marile Ana Bravo, aos 55 anos, exemplifica a perseverança. Após anos dedicados à família e a múltiplos trabalhos informais, ela alcançou o sonho de ingressar no ensino superior, cursando Gestão Pública. Sua trajetória é marcada pela necessidade de independência financeira e pelo cuidado com os filhos, incluindo uma filha com Síndrome de Down, o que exigiu novas adaptações e resiliência.
Apesar das interrupções impostas pela vida e pela pandemia, Marile não desistiu de seu objetivo educacional. A dedicação ao empreendedorismo, vendendo salgados e bolos, foi um dos meios encontrados para sustentar a família e permitir que ela, finalmente, voltasse aos estudos. Sua experiência atual na universidade é descrita como um momento de plenitude e realização pessoal.
“A sala de aula, para mim, é um lugar de plenitude. É o lugar de oportunidade, realização, troca. Lugar de estar viva. Então, assim, sou feliz com todos os perrengues que a mulher tem. Eu sou um sujeito, sou um ser humano, eu tenho o direito de estar aqui”, afirma Marile, ressaltando a importância de se reconhecer como indivoma com direitos e ambições.
A Luta contra Barreiras de Gênero e o Empreendedorismo
Quebrando estereótipos em um ambiente tradicional, Sofia Milarski, de 21 anos, desafiou as convenções ao se tornar uma das primeiras mulheres a tocar o repique na bateria da escola de samba Mocidade Azul. Sua paixão pela percussão, iniciada em contextos acadêmicos, a levou a um espaço onde instrumentos de maior impacto eram predominantemente masculinos.
A iniciativa de Sofia em aprender e executar o repique, um instrumento que exige técnica e força, demonstra uma recusa em se limitar a papéis predefinidos. O apoio de colegas e a sua própria coragem foram cruciais para que ela conquistasse seu espaço e se sentisse realizada em uma performance que poucos imaginavam ser possível para uma mulher.
“Não tinha nenhuma regra falando que mulheres não podem tocar repique. É mais uma construção social. E a partir do momento que eu ignoro que é uma construção social, ela deixa de existir. A única pessoa que pode falar pra mim mesma que eu não posso tocar repique por ser mulher, sou eu. Eu aprendi que o primeiro passo para ir contra essas construções sociais, é ignorar. Não tem ninguém falando que é impossível, e nós podemos”, reflete Sofia sobre a importância de desafiar expectativas.
Em outra frente, Yedimar Castellano, imigrante venezuelana, reescreveu sua trajetória em Curitiba. Ao lado do marido e do filho, ela deixou a Venezuela em busca de novas oportunidades, enfrentando as complexidades de se adaptar a um novo país e idioma.
Yedi dedicou-se a estudos e voluntariado para compreender a cultura brasileira e o idioma, enquanto seu marido encontrou trabalho mais rapidamente. Sua resiliência a levou a empreender, fundando a agência Terra Latina, que auxilia outros imigrantes latinos a estabelecerem seus negócios no Brasil. Este empreendimento reflete não apenas sua capacidade de adaptação, mas também seu desejo de apoiar sua comunidade.
Recentemente, Yedi celebrou a revalidação de seu diploma de pedagoga no Brasil. Este feito, que pode parecer simples para alguns, representa para ela a abertura de novas portas e a consolidação de seu recomeço, provando que o desejo de se reinventar é um motor poderoso.
Um Legado de Luta e Conquista para o 8 de Março
O 8 de março transcende a celebração, configurando-se como um momento crucial para refletir sobre a contínua luta por igualdade e segurança para as mulheres. Os índices de violência e as desigualdades sociais ainda impõem desafios significativos, exigindo constante vigilância e engajamento.
Histórias como as de Marile, Sofia e Yedi são um testemunho de que, apesar dos obstáculos, as mulheres demonstram uma capacidade extraordinária de superar adversidades. Elas não apenas conquistam seus próprios espaços, mas também pavimentam o caminho para futuras gerações, inspirando-as a acreditar em seus potenciais e a buscar seus sonhos.
A realização pessoal de Marile ao retornar à universidade é um símbolo de que nunca é tarde para buscar o conhecimento e o desenvolvimento. Sua autopercepção como uma mulher comum, que se forma e se inspira em outras mulheres, reforça a ideia de que a força reside na coletividade e no apoio mútuo.
Sofia, ao ignorar as construções sociais que a limitariam, mostra que a quebra de paradigmas começa com a autoconfiança e a recusa em aceitar barreiras impostas. Sua coragem em assumir um papel de destaque em um campo tradicional encoraja outras jovens a perseguirem suas paixões sem medo de julgamentos.
Para Yedi, o percurso de imigrante e empreendedora é uma demonstração clara de que a capacidade de superar fronteiras, tanto geográficas quanto sociais, é intrínseca às mulheres. Sua conquista e a de outras como ela demonstram que o avanço individual se traduz em progresso coletivo, inspirando mais mulheres a acreditarem em seu próprio potencial de sucesso.






