Favela Esquecida Renasce Como Ponto Turístico

🕓 Última atualização em: 14/01/2026 às 16:00

O que hoje é um dos cartões-postais mais emblemáticos do Brasil, o Jardim Botânico de Curitiba, carrega em sua história uma transformação profunda que reflete o desenvolvimento urbano e social da capital paranaense. A área, outrora conhecida por um nome de origem indígena que remetia a um “mato ruim”, passou por ciclos de ocupação, desde propriedades rurais de figuras notáveis do Império até áreas de habitação popular e, finalmente, a concepção de um complexo voltado ao planejamento urbano e à preservação ambiental.

A região, que antes servia como chácara para o Barão de Capanema, um entusiasta da botânica e proprietário de terras extensas, ostentava coleções de plantas raras e bosques. Esse legado natural serviu de inspiração para o futuro, mesmo antes da criação oficial de um jardim botânico na cidade. A importância dessas terras era tão reconhecida que, em visita imperial, o horto do Barão foi destacado como um dos mais relevantes do país.

Com o avanço da industrialização no século XX, o cenário rural deu lugar a uma dinâmica urbana em expansão. A implantação de infraestruturas como a estação ferroviária e o estádio de futebol Vila Capanema alterou significativamente o perfil socioeconômico da localidade.

O impacto social e a reconfiguração territorial

O êxodo rural intensificado a partir da década de 1950 impulsionou o surgimento de ocupações irregulares às margens do Rio Belém. Essas áreas, muitas vezes ambientalmente frágeis, tornaram-se o destino de famílias que buscavam melhores condições de vida na cidade, mas que careciam de acesso à moradia formal. A Favela do Capanema, como ficou conhecida, chegou a abrigar uma parcela significativa da população sem moradia em Curitiba.

A transformação e a preservação

A remoção das famílias, realizada pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) em 1976, abriu caminho para um projeto de ressignificação do espaço. A inauguração do Jardim Botânico de Curitiba em 1991 marcou o início de uma nova era para a área. O projeto, concebido pelo arquiteto Jaime Lerner, buscou integrar urbanismo, sustentabilidade e um profundo respeito pela natureza.

O icônico espaço, inspirado em jardins franceses, rapidamente se consolidou como um símbolo da cidade. Sua estufa de vidro e metal, com formato de cúpula e inspirada no Palácio de Cristal de Londres, abriga uma diversidade de espécies vegetais tropicais e subtropicais, servindo como centro de pesquisa, educação e conservação.

O complexo expandiu-se para além da estufa, incorporando trilhas ecológicas, bosques, jardins temáticos e espaços acessíveis, como o jardim sensorial. Essa diversidade de elementos reforça seu papel multifacetado como atração turística, centro de estudos ambientais e um marco do planejamento urbano consciente. A mudança de nome do bairro, oficializada após plebiscito em 1992 para Jardim Botânico, consolidou essa nova identidade e homenageou a urbanista Francisca Maria Garfunkel Rischbieter, figura crucial no desenvolvimento da cidade.

O legado de um espaço multifacetado

A trajetória do Jardim Botânico de Curitiba é um testemunho da capacidade de uma cidade de transformar espaços e reinventar seu futuro, conciliando desenvolvimento com a preservação ambiental. A área que um dia abrigou uma favela, fruto das migrações e da falta de políticas habitacionais adequadas, hoje é um centro de referência em pesquisa, educação e lazer.

Essa evolução demonstra como o planejamento urbano pode ser uma ferramenta poderosa para a inclusão social e a valorização ambiental. O Jardim Botânico não é apenas um conjunto de edifícios e paisagismo, mas um espaço vivo que educa, inspira e contribui para a qualidade de vida, posicionando Curitiba como exemplo de cidade sustentável e inovadora.

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