No município de Balsa Nova, no estado do Paraná, o funcionamento do ecossistema de saúde está estruturado a partir da UBS Lauro José Bubniak, que atua como a principal porta de entrada dos usuários no Sistema Único de Saúde (SUS). A unidade recebe a demanda espontânea e programada da população, realizando o acolhimento, o atendimento inicial e o acompanhamento longitudinal dos usuários.
A UBS Lauro José Bubniak mantém comunicação constante com os demais setores da rede municipal de saúde, realizando o envio e o recebimento de demandas administrativas e assistenciais. Essa integração ocorre principalmente com a Secretaria Municipal de Saúde, o setor de Epidemiologia, a Farmácia Básica, a Regulação Municipal, o Setor de Nutrição e o Hospital Municipal. A troca de informações clínicas e registros assistenciais acontece, majoritariamente, por meio do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), permitindo o registro das ações, encaminhamentos e acompanhamentos realizados pela equipe.
No que se refere à assistência farmacêutica e à gestão de insumos, a UBS se comunica diretamente com a Farmácia Municipal, o Almoxarifado e a Farmácia de Alto Custo, utilizando o sistema HÓRUS para o controle, a solicitação e a dispensação de medicamentos e materiais. Esse sistema contribui para a organização dos estoques e para o acompanhamento do uso racional de medicamentos no âmbito da Atenção Primária.
O município conta com uma Central de Regulação de Transporte, responsável por organizar e disponibilizar o deslocamento de pacientes por meio de ambulâncias, vans ou veículos de passeio, especialmente nos casos em que há necessidade de atendimento em outros municípios. A articulação entre a UBS e o Transporte Sanitário ocorre, predominantemente, por contato telefônico, sendo um recurso essencial para garantir o acesso dos usuários a consultas especializadas, exames, internações hospitalares e demais atendimentos fora do território municipal. Esse serviço desempenha papel estratégico na continuidade do cuidado e na efetivação do acesso à rede regional de atenção à saúde.
Fluxos de atendimento e comunicação com os pacientes
A comunicação entre os diversos serviços de saúde do município, incluindo a Secretaria Municipal de Saúde, UBS, Epidemiologia, Farmácia, Setor de Nutrição e Hospital Municipal, ocorre de forma direta com os usuários, principalmente por meio de contato telefônico e mensagens via WhatsApp. Esses canais são amplamente utilizados para informar os pacientes sobre agendamentos, consultas, horários, encaminhamentos e, em muitos casos, para o envio e recebimento de informações complementares, como orientações e esclarecimentos sobre o atendimento.
Essa forma de comunicação tem se mostrado um recurso ágil e acessível, permitindo um acompanhamento mais próximo dos usuários, fortalecendo o vínculo com os serviços de saúde e contribuindo para a melhoria do acesso e da continuidade do cuidado.
Fluxos para outros municípios e desafios na continuidade do cuidado
Um desafio relevante identificado no território diz respeito aos usuários encaminhados para a Central de Regulação Municipal. Após esse encaminhamento, muitas vezes ocorre a perda de contato e de informações sobre o desfecho do atendimento, especialmente quando o paciente é direcionado para outros municípios ou hospitais de referência que utilizam sistemas de informação distintos, sem interoperabilidade com o sistema local. Essa situação impacta diretamente a continuidade do cuidado e dificulta o acompanhamento clínico pela equipe da UBS.
Essa fragilidade é ainda mais evidente nos casos de gestantes que realizam pré-natal no município, mas são encaminhadas para parto em outro município, assim como nos casos de pacientes que necessitam de procedimentos cirúrgicos. Frequentemente, a UBS não recebe informações detalhadas sobre o atendimento realizado, evolução clínica ou alta hospitalar, comprometendo o seguimento pós-atendimento na Atenção Primária.
Atenção à Saúde Mental no município
No campo da Saúde Mental, o município de Balsa Nova apresenta limitações importantes na organização da atenção em nível municipal. O município não dispõe de uma equipe multiprofissional estruturada e articulada de forma contínua para atender às demandas de saúde mental, a qual idealmente deveria ser composta por médicos, psiquiatra, psicólogo, enfermeiro e assistente social, garantindo acompanhamento integral, longitudinal e resolutivo aos usuários em sofrimento psíquico e com transtornos mentais.
Apesar dessa limitação estrutural, o município adota critérios técnicos para organização do acesso aos atendimentos especializados. Todos os pacientes encaminhados para atendimento com psicólogo ou psiquiatra passam, obrigatoriamente, por uma estratificação de risco em saúde mental, utilizando instrumento padronizado elaborado pelo Governo do Estado do Paraná. Esse documento tem como finalidade classificar o grau de gravidade do quadro apresentado pelo usuário, direcionando o cuidado conforme o nível de risco identificado.
A estratificação classifica os pacientes em baixo risco, risco intermediário ou alto risco, orientando a prioridade do atendimento, o fluxo assistencial e a necessidade de acompanhamento especializado. Essa avaliação pode ser realizada por qualquer profissional de nível superior da UBS, desde que capacitado, o que amplia o acesso à avaliação inicial e possibilita a identificação precoce de situações de maior gravidade.
Na prática, a atuação em saúde mental no município ocorre de forma fragmentada, baseada principalmente em encaminhamentos formais registrados no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC). Após a estratificação e o encaminhamento, a Secretaria Municipal de Saúde assume a organização administrativa do cuidado, sendo responsável pelo agendamento, definição de data, local e horário dos atendimentos com os profissionais disponíveis. Embora esse modelo permita o acesso ao serviço, ele não configura uma linha de cuidado estruturada e contínua em saúde mental.
Além disso, por se tratar de um município de pequeno porte, Balsa Nova não dispõe de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Dessa forma, os casos classificados como alto risco ou que demandam atenção especializada de maior complexidade são encaminhados ao Hospital Municipal (Centro Médico Bom Jesus) e, quando necessário, inseridos na Central de Regulação Psiquiátrica para atendimento em municípios de referência. Esse fluxo evidencia a dependência da rede regional e reforça a necessidade de fortalecer a articulação intermunicipal e a integração dos sistemas de informação, a fim de garantir a continuidade do cuidado, o retorno das informações à UBS e a integralidade da assistência em saúde mental.
Estratégias de gestão e atuação profissional para superar desafios na Saúde Digital em Balsa Nova
Os desafios identificados no ecossistema de saúde digital do município de Balsa Nova demandam ações integradas e complementares tanto no nível da gestão quanto no nível dos profissionais de saúde, com o objetivo de fortalecer a continuidade do cuidado, aprimorar a integração entre os serviços e qualificar a assistência prestada à população. Considerando as limitações estruturais do município, especialmente no que se refere à atenção especializada e à saúde mental, torna-se fundamental adotar estratégias organizacionais e práticas profissionais que minimizem a fragmentação do cuidado e potencializem o uso das tecnologias disponíveis.
Resolução dos problemas no nível da gestão
No âmbito da gestão municipal, a superação das fragilidades identificadas passa, prioritariamente, pelo fortalecimento da governança dos sistemas de informação em saúde. É imprescindível que a Secretaria Municipal de Saúde estruture e normatize fluxos formais de referência e contrarreferência, assegurando que informações sobre atendimentos realizados fora do município — como partos, procedimentos cirúrgicos, internações e atendimentos especializados — retornem de maneira sistematizada à UBS de origem. Esse retorno de informações é essencial para garantir o acompanhamento pós-atendimento e a continuidade do cuidado na Atenção Primária.
Outro aspecto central refere-se à necessidade de pactuação regional com municípios de referência, buscando a padronização mínima dos fluxos de informação e a melhoria da comunicação entre os serviços da rede regional de atenção à saúde. Mesmo diante da inexistência de interoperabilidade plena entre os diferentes sistemas utilizados, a gestão pode instituir protocolos administrativos padronizados, relatórios de alta hospitalar, formulários de contrarreferência e canais oficiais de comunicação entre os serviços, reduzindo a perda de informações clínicas relevantes.
A gestão municipal também exerce papel estratégico no investimento contínuo em capacitação profissional, garantindo que as equipes estejam qualificadas para o uso adequado do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), do sistema HÓRUS e de outros instrumentos de apoio à gestão e à assistência. Paralelamente, é fundamental investir na infraestrutura tecnológica, com melhorias na conectividade, disponibilidade de equipamentos e suporte técnico, assegurando o funcionamento adequado dos sistemas digitais no cotidiano dos serviços.
Além disso, o fortalecimento da articulação com a Central de Regulação Municipal, incluindo a Regulação de Transporte e a Regulação Psiquiátrica, contribui para maior transparência, rastreabilidade e organização dos encaminhamentos, permitindo melhor monitoramento dos fluxos assistenciais e dos desfechos dos atendimentos realizados fora do território.
No campo da Saúde Mental, a gestão enfrenta desafios adicionais em função da inexistência de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no município. Nesse contexto, torna-se essencial fortalecer a articulação com os serviços regionais de referência, estabelecer acordos intermunicipais e definir fluxos assistenciais claros, especialmente para os casos classificados como alto risco a partir da estratificação de saúde mental. A valorização e o uso sistemático desse instrumento estadual contribuem para uma regulação mais justa, técnica e baseada na gravidade dos casos.
Resolução dos problemas no nível profissional
No nível dos profissionais de saúde, a resolução das fragilidades identificadas está diretamente relacionada à qualidade dos registros clínicos, à comunicação efetiva entre os pontos da rede e à responsabilidade compartilhada pelo acompanhamento dos usuários. O preenchimento completo, claro e padronizado do prontuário eletrônico, especialmente no PEC, é fundamental para garantir a continuidade do cuidado, mesmo quando o paciente é encaminhado para outros serviços ou municípios.
Os profissionais também desempenham papel central na orientação dos usuários, sobretudo gestantes, pacientes cirúrgicos e aqueles encaminhados para atendimento fora do município. A orientação adequada sobre a importância de retornar à UBS com relatórios, prescrições, laudos ou informações do atendimento realizado contribui para reduzir a perda de dados clínicos e fortalece o vínculo entre a equipe e o usuário.
A atuação integrada da equipe da UBS, por meio de reuniões periódicas, discussão de casos e articulação entre os diferentes setores, possibilita a identificação precoce de fragilidades no cuidado e a construção de soluções coletivas. No campo da Saúde Mental, embora não exista uma equipe multiprofissional estruturada de forma contínua, a utilização da estratificação de risco em saúde mental, realizada por profissionais de nível superior da UBS, permite organizar o fluxo assistencial, priorizar casos mais graves e direcionar adequadamente os encaminhamentos.
Por fim, a postura ética, proativa e comprometida dos profissionais de saúde, aliada ao uso consciente e qualificado das tecnologias digitais disponíveis, é essencial para transformar os desafios do ecossistema de saúde digital em oportunidades de melhoria contínua, promovendo cuidado mais integral, seguro e centrado nas necessidades da população de Balsa Nova.
Comunicação entre os pacientes e as unidades de saúde
Apesar de o serviço de comunicação entre os pacientes e as unidades de saúde ocorrer de forma ágil e eficiente, observa-se ainda uma fragilidade no acompanhamento sistematizado de usuários que demandam atenção especializada, como gestantes, pacientes em acompanhamento em saúde mental e aqueles vinculados às ações de imunização. Atualmente, o município concentra grande parte dos atendimentos e contatos em um único canal de comunicação, o que acaba sobrecarregando o setor e levando, muitas vezes, à priorização de demandas mais recorrentes e imediatas, em detrimento de acompanhamentos que exigem maior continuidade e monitoramento.
Nesse contexto, a solução ideal seria a criação de canais de comunicação específicos ou serviços especializados por área, como um canal exclusivo para saúde da mulher, saúde mental e imunização, permitindo um acompanhamento mais organizado, resolutivo e humanizado, além de melhorar a gestão das demandas, reduzir a sobrecarga dos profissionais e qualificar a continuidade do cuidado prestado à população.
Saúde Digital em Balsa Nova apresenta avanços importantes
De modo geral, a situação da Saúde Digital no município de Balsa Nova pode ser caracterizada como funcional, organizada e em processo de amadurecimento, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde. O município utiliza sistemas oficiais como o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) e o HÓRUS, mantém canais ágeis de comunicação com os usuários e consegue articular seus serviços básicos de forma resolutiva, mesmo diante das limitações de porte e estrutura.
No entanto, persistem desafios relevantes relacionados à integração com a rede regional, à interoperabilidade dos sistemas, ao acompanhamento de pacientes encaminhados para outros municípios e à organização de linhas de cuidado especializadas, como saúde mental, gestação e imunização.
Assim, a Saúde Digital em Balsa Nova apresenta avanços importantes no uso das tecnologias disponíveis, mas ainda demanda investimentos em governança, integração regional e organização de fluxos especializados, para garantir maior continuidade do cuidado, segurança da informação e integralidade da assistência à população.
Nota:
Este texto integra uma avaliação elaborada pelo enfermeiro Raimundo Renato da Silva Neto, Enfermeiro, COREN-PR nº 325265-IS, servidor efetivo na UBS Lauro José Bubniak, no município de Balsa Nova/PR. A atividade faz parte do processo avaliativo da Especialização do Ministério da Saúde em Saúde Digital no Sistema Único de Saúde (SUS), tendo como objetivo analisar o ecossistema local de saúde digital, seus fluxos, desafios e perspectivas de melhoria a partir da prática profissional na Atenção Primária à Saúde.






