Curitibano Rumo ao Topo: Maior Travessia de Montanhas do Brasil

🕓 Última atualização em: 12/02/2026 às 23:59

Um feito extraordinário de resistência e exploração territorial foi realizado na Serra do Mar paranaense. Jhonatan Carvalho, 37 anos, militar da Aeronáutica e músico, completou a travessia mais longa entre montanhas já registrada no Brasil. A jornada, nomeada pelo próprio atleta de “Caveira Charlie Charlie”, percorreu aproximadamente 130 quilômetros e abrangeu 77 picos distintos, exigindo oito dias de autossuficiência e profundo conhecimento do terreno.

A expedição iniciou em 25 de julho de 2023, partindo do Capivari Menor, em Campina Grande do Sul, e culminou em 1º de agosto no Morro do Canal, em Piraquara. O percurso abrangeu cadeias montanhosas icônicas como a Serra da Jaguatirica, do Ibitiraquire – lar do Pico Paraná, o mais alto da região Sul –, da Farinha Seca, do Marumbi e da Melança.

Jhonatan Carvalho, conhecido pelo apelido “Caveira”, combinou sua paixão pela música e pelo esporte em uma carreira multifacetada. Nascido em Curitiba, mas com fortes laços com Antonina, onde a paisagem montanhosa o inspirava desde a infância, ele trilhou um caminho inicial como músico, atuando na banda da Aeronáutica. Sua transição para o montanhismo ocorreu de forma gradual, após um convite para uma corrida de rua revelar seu potencial atlético.

O interesse pelas montanhas se intensificou quando, durante um curso militar, foi desafiado a escalar o Morro do Anhangava. Essa experiência inicial o impulsionou a explorar o universo do trail running e, posteriormente, o montanhismo técnico. A participação em cursos de socorro em montanha aprofundou seu contato com a escalada e ampliou seu conhecimento sobre diversos picos.

O Despertar de uma Aventura de Longa Distância

A concepção da travessia nasceu da colaboração com outros ultramaratonistas, com quem Jhonatan explorou a Serra do Mar e conheceu lendas do esporte local. A ideia de conectar o Capivari e o Ibitiraquire para criar uma rota mais extensa amadureceu ao longo do tempo, culminando na decisão de realizar o feito em 2023.

Devido a imprevistos com um companheiro de expedição, Jhonatan optou por empreender a jornada solo. Meses antes da travessia, ele dedicou-se a abrir uma nova trilha de aproximadamente cinco quilômetros, ligando as serras do Capivari e do Ibitiraquire através do pico Guaricana. Este trecho inédito exigiu um planejamento minucioso e um esforço adicional de desbravamento.

O período escolhido para a travessia, entre julho e agosto, visou aproveitar a estabilidade climática do inverno paranaense. Apesar dos dias mais curtos, o clima mais ameno é crucial para a performance em atividades de longa duração e com grande desnível acumulado. A expedição demandou uma escalada total de cerca de 12 mil metros e uma descida de 11 mil metros, totalizando um desafio físico considerável.

Momentos de profunda conexão com a natureza e consigo mesmo foram intercalados por encontros marcantes com outras pessoas em pontos estratégicos do percurso, como o Taipabuçu e o Pico Paraná. O apoio familiar também foi um ponto alto, com uma visita surpresa de seus entes queridos durante um acampamento próximo à Estrada da Graciosa, proporcionando um alívio emocional e um lembrete do lar.

Uma narrativa paralela e emocionante envolveu a companhia inesperada de dois cães. Encontrados no quarto dia de caminhada, os animais o acompanharam por trechos significativos da travessia, transformando a solidão em uma experiência mais interativa. Um dos cães o seguiu até o Morro do Sete, enquanto o outro o acompanhou até o Marumbi.

A logística da travessia demandou um planejamento rigoroso em relação à alimentação e ao equipamento. Jhonatan carregou consigo suprimentos liofilizados, sopas, macarrão instantâneo e bisnaguinhas para as refeições, complementados por paçoca e torrone para energia durante a caminhada. A reposição de eletrólitos era feita com cápsulas de sal. Para dormir, utilizou uma rede com cobertura, que serviu como seu abrigo noturno em meio à vastidão da serra.

O Legado e a Reflexão sobre o Limite Humano

A travessia “Caveira Charlie Charlie” não se resume a um recorde de quilometragem ou cumes escalados. Ela representa a superação de limites físicos e mentais, a resiliência diante de desafios e a profunda conexão entre o ser humano e a natureza. O feito é um testemunho da capacidade humana de se adaptar e prosperar em ambientes extremos, exigindo não apenas força física, mas também um notável controle emocional e psicológico.

A experiência reforça a importância do planejamento, do autoconhecimento e do respeito pelas complexidades do ambiente natural. Ao completar esta jornada monumental, Jhonatan Carvalho não apenas expandiu os horizontes do montanhismo brasileiro, mas também inspirou outros a explorarem suas próprias capacidades e a se conectarem com a beleza e os desafios da Serra do Mar.

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