A produção de histórias em quadrinhos no Brasil, especialmente em Curitiba, tem se consolidado como um nicho cultural e econômico relevante, culminando na celebração do Dia Nacional dos Quadrinhos em 30 de janeiro. A data remete à publicação pioneira de “As Aventuras de Nhô-Quim” por Angelo Agostini em 1869, marco inaugural das HQs no país. Quase 160 anos depois, a capital paranaense se destaca como um polo vibrante para a nona arte, com uma história rica que remonta à fundação de editoras importantes e à criação de espaços dedicados exclusivamente a esse universo.
O embrião desse movimento curitibano remonta ao final da década de 1970, com a fundação da Grafipar por Faruk El-Katib. A editora se tornou a primeira grande produtora de quadrinhos fora do tradicional eixo Rio-São Paulo. O sucesso do selo atraiu talentos como Bonini, Franco de Rosa, Nelson Padrella e Cláudio Seto, que se estabeleceram na cidade, culminando na formação da chamada Vila dos Quadrinistas no bairro São Braz. Essa concentração de artistas marcou o início de uma profunda e duradoura relação entre Curitiba e a arte sequencial.
Entre 1978 e 1983, estima-se que mais de cem títulos tenham sido publicados na região, segundo o pesquisador Fúlvio Pacheco. As discussões sobre as obras e a troca de experiências ocorriam frequentemente na Casa da Memória, um local que se tornou ponto de encontro para os entusiastas.
Foi nesse ambiente colaborativo que surgiu a ideia de criar um espaço dedicado à socialização e ao estudo dos quadrinhos. Em 1982, sob a iniciativa do arquiteto Key Imaguire Jr., Curitiba inaugurou a Gibiteca, pioneira no Brasil e, segundo alguns estudiosos como Waldomiro Vergueiro, possivelmente a primeira do mundo. A Gibiteca impulsionou a produção local a um novo patamar de reconhecimento e atividade.
Na esteira desse crescimento, a cidade viu surgir sua primeira e, atualmente, única comic shop: a Itiban. Fundada em 1989 por Mitie Taketami e seu marido Francisco Utrabo, a loja se tornou um ponto de referência para colecionadores e apreciadores da arte sequencial.
O Legado da Itiban e a Diversificação do Mercado
Mitie Taketami compartilha que sua conexão com os quadrinhos floresceu na infância, alimentada pelas tirinhas presentes nos jornais lidos por seu pai. Essa paixão se intensificou com a aquisição gradual de gibis, desde a Turma da Mônica até obras mais adultas. Paralelamente, a música sempre foi um pilar em sua vida, e foi por meio dessa outra paixão que conheceu seu futuro marido, Chico. A convergência de interesses, incluindo a vivência de Chico em países com forte tradição em quadrinhos como Argentina e Espanha, selou a união de duas almas criativas.
A decisão de se mudar para Curitiba, motivada pelo custo de vida em São Paulo, provou ser acertada. O empreendedorismo do casal se manifestou com a abertura da Itiban em 1989. Inicialmente, a ideia era estabelecer uma revistaria tradicional, aproveitando o modelo de consignação que demandava um investimento inicial menor. O local, na Visconde do Rio Branco, comercializava jornais, revistas, gibis, doces e cigarros.
Com o tempo, o foco em quadrinhos se tornou cada vez mais proeminente. A Itiban evoluiu para uma comic shop, impulsionada pela curadoria atenta de Mitie e Chico, que traziam publicações importadas e lançamentos inéditos muito antes de chegarem ao mercado nacional. O perfil “underground” e vanguardista do casal atraiu um público específico, que buscava novidades e um olhar diferenciado sobre a arte sequencial.
A evolução do mercado curitibano de quadrinhos é notável, com a transição de uma geração influenciada pela Grafipar para uma nova safra de artistas talentosos como José Aguiar e Guilherme Caldas. A diversidade de gênero no meio também aumentou significativamente, refletindo uma maior inclusão.
Atualmente, a forma de produção se tornou mais acessível, fomentando coletivos de publicações independentes como o “Encrenca” e a revista “Pé Na Cabra”, que promovem a circulação de trabalhos de artistas de todo o Brasil. Obras como as de Fábio Vermelho e Chico Félix demonstram a liberdade criativa e a variedade temática explorada pelos quadrinistas, sem as restrições de editores tradicionais.
Desafios e Potencialidades do Mercado de Quadrinhos
Apesar do crescimento expressivo, Mitie Taketami aponta que o mercado de quadrinhos ainda enfrenta barreiras significativas. A desinformação sobre o que constitui a arte sequencial e o preconceito persistente, que a associa erroneamente apenas ao público infantil, limitam a expansão do público. É crucial desmistificar a ideia de que quadrinhos são meros facilitadores da leitura, quando na verdade exigem uma sensibilidade interpretativa própria e complexa.
A falta de visibilidade e o estigma cultural ainda precisam ser combatidos para que o potencial completo da nona arte seja explorado. É fundamental promover a compreensão de que quadrinhos abrangem uma vasta gama de gêneros, temas e formatos, atendendo a públicos de todas as idades e interesses. A democratização do acesso e a valorização da diversidade de narrativas são passos essenciais para consolidar os quadrinhos como uma forma de expressão artística e cultural plenamente reconhecida e apreciada.






