Curitiba se consolida como um epicentro do universo das histórias em quadrinhos no Brasil, celebrando uma rica história que remonta à fundação da primeira editora de quadrinhos fora do eixo Rio-São Paulo e à criação da pioneira Gibiteca nacional. Essa trajetória, que teve um impulso significativo no final dos anos 1970 com a fundação da Grafipar, reunindo talentos em um bairro específico, marca a profunda ligação da cidade com a nona arte e sua evolução para um mercado vibrante e diversificado.
A influência da Grafipar foi crucial, atraindo artistas renomados e fomentando um ambiente criativo. A concentração de talentos na Vila dos Quadrinistas, no bairro São Braz, permitiu o intercâmbio de ideias e impulsionou a produção de mais de cem títulos entre 1978 e 1983, segundo o pesquisador Fúlvio Pacheco. Esses encontros informais, muitas vezes realizados na Casa da Memória, culminaram em uma iniciativa transformadora: a criação da Gibiteca de Curitiba em 1982. Projetada pelo arquiteto Key Imaguire Jr., esta instituição não apenas serviu como um centro de socialização e debate, mas também se tornou um marco na preservação e divulgação da cultura dos quadrinhos, sendo considerada a primeira do país e, possivelmente, do mundo.
A partir da consolidação da Gibiteca, o cenário dos quadrinhos em Curitiba ganhou novas dimensões. Foi nesse contexto que surgiu a Itiban, a primeira e única comic shop da cidade até os dias atuais, fundada em 1989 por Mitie Taketami e Francisco Utrabo. Inicialmente pensada como uma revistaria tradicional, a Itiban evoluiu ao longo do tempo, expandindo seu acervo e se tornando um ponto de referência para fãs e colecionadores, refletindo a crescente demanda por material especializado e diversificado.
A Curadoria que Moldou um Mercado
Mitie Taketami, proprietária da Itiban, compartilha que sua paixão por quadrinhos floresceu na infância, alimentada pelas leituras das tirinhas em jornais e, posteriormente, pelos gibis da época. Essa afinidade precoce com a arte sequencial se manteve ao longo de sua vida, entrelaçando-se com outra grande paixão: a música. Foi no universo musical que ela conheceu seu marido, Francisco Utrabo, um músico com vivências na Argentina e Espanha, países com forte tradição em quadrinhos.
A decisão de se estabelecerem em Curitiba, em 1988, foi motivada pelos altos custos de vida em São Paulo. A ideia de abrir a Itiban surgiu no ano seguinte, em 1989, como um empreendimento acessível. Começou como uma revistaria na Avenida Visconde do Rio Branco, comercializando jornais, revistas, gibis, doces e cigarros, um modelo de negócio facilitado pelo sistema de consignação. Com o tempo, porém, a dedicação aos quadrinhos se intensificou.
A Itiban rapidamente se diferenciou pela sua curadoria. Mitie e Chico, com seu interesse por outras formas de arte como moda, teatro, cinema e música, trouxeram uma abordagem inovadora, importando publicações estrangeiras e antecipando tendências que chegariam ao Brasil. Essa visão “underground” e “fora da casinha” atraiu um público sintonizado com novidades, consolidando a loja como um espaço de descoberta e de conexão com a vanguarda do mercado de quadrinhos.
Transformações e Desafios no Cenário Atual
O mercado de quadrinhos em Curitiba tem testemunhado uma notável evolução, não apenas na diversidade de artistas, mas também na forma de produção e na expansão do público. A geração que acompanhou os primórdios da Grafipar deu origem a talentos contemporâneos como José Aguiar e Guilherme Caldas, evidenciando um ciclo virtuoso de formação e renovação. Mitie Taketami destaca a crescente diversidade de gênero no meio, contrastando com a predominância masculina no passado.
Atualmente, a facilidade de produção e a ascensão de publicações independentes, como coletivos e revistas temáticas, impulsionam o lançamento de novas obras e ampliam o alcance dos artistas. Projetos como o coletivo ‘Encrenca’ e a revista ‘Pé Na Cabra’, que reúne artistas de todo o país, demonstram essa efervescência. A liberdade criativa inerente a esses projetos independentes permite que artistas explorem temas sem a restrição de editores, resultando em trabalhos ousados e inovadores, como exemplificado por Fábio Vermelho e Chico Félix.
Apesar do crescimento do público, Mitie aponta que o mercado de quadrinhos ainda enfrenta desafios significativos. O preconceito em relação ao meio, associado à ideia de que quadrinhos são apenas para crianças, limita sua visibilidade e alcance. É fundamental desmistificar essa percepção, mostrando que os quadrinhos abrangem uma vasta gama de gêneros e temáticas, adequados a todos os públicos. Além disso, a leitura de quadrinhos exige uma sensibilidade específica para a absorção da narrativa visual, indo além de uma mera facilitação para o aprendizado da leitura.






