Coração em Risco Mulheres

🕓 Última atualização em: 04/03/2026 às 01:15

Doenças cardiovasculares emergem como a principal causa de óbito entre a população feminina no Brasil, superando até mesmo neoplasias ginecológicas como o câncer de mama. Em 2023, mais de 182 mil mulheres faleceram devido a condições cardiovasculares, totalizando aproximadamente 47% das mortes por essa causa no país, um percentual que se mantém estável nos últimos anos, segundo dados do Ministério da Saúde e do Observatório da Saúde Cardiovascular do Instituto Nacional de Cardiologia (INC).

No estado do Paraná, a tendência se alinha à média nacional. As doenças do coração e vasos sanguíneos figuram consistentemente entre os principais fatores de mortalidade feminina. Embora tenha havido uma redução nas taxas padronizadas por idade nas últimas décadas, a subnotificação e o diagnóstico tardio de patologias cardiovasculares em mulheres ainda representam desafios significativos para a saúde pública.

A cardiologista e diretora de comunicação da Sociedade Paranaense de Cardiologia, Dra. Laura Mendes, aponta que, apesar dos avanços na redução da mortalidade cardiovascular na região Sul do Brasil, as mulheres ainda enfrentam barreiras específicas que podem influenciar o prognóstico.

Um dos fatores cruciais é a manifestação atípica dos sintomas de eventos como o infarto do miocárdio em mulheres. Em vez da dor torácica clássica, queixo ou braço, é comum que surjam sintomas como fadiga extrema, falta de ar, dores nas costas, no estômago ou na mandíbula. Essa apresentação distinta pode levar a um atraso na busca por atendimento médico especializado, comprometendo a rapidez do tratamento.

Adicionalmente, fatores inerentes ao universo feminino, como as alterações hormonais associadas à menopausa, o uso de contraceptivos orais, a gestão do estresse crônico e a sobrecarga da dupla jornada (profissional e doméstica), além de quadros de hipertensão gestacional, elevam o risco cardiovascular ao longo da vida. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) corrobora essa preocupação, indicando que mulheres tendem a apresentar maior mortalidade após um infarto em comparação aos homens, em parte devido ao tempo prolongado até o início do tratamento.

A influência de fatores de risco modernos

Um ponto de atenção crescente é o aumento notório de casos de doenças cardiovasculares em faixas etárias mais jovens, entre 20 e 39 anos, entre a população feminina. Este fenômeno é diretamente associado a um estilo de vida cada vez mais sedentário, altas taxas de obesidade, prevalência do tabagismo e níveis elevados de estresse.

Esses hábitos, muitas vezes enraizados na rotina diária, criam um terreno fértil para o desenvolvimento precoce de fatores de risco como hipertensão arterial, dislipidemia (colesterol e triglicerídeos elevados) e diabetes mellitus. A conjugação desses elementos impacta negativamente a saúde vascular, aumentando a probabilidade de eventos cardiovasculares agudos em idades antes consideradas incomuns para tais condições.

A complexidade desses fatores de risco modernos exige uma abordagem multifacetada por parte das políticas públicas de saúde. É fundamental ir além da atenção clínica curativa e investir em programas de educação em saúde que incentivem hábitos saudáveis desde a adolescência, combatam o sedentarismo e promovam o bem-estar mental. A conscientização sobre os sinais de alerta, mesmo que atípicos, também é um componente vital dessa estratégia preventiva.

Estratégias de prevenção e intervenção precoce

A prevenção de doenças cardiovasculares em mulheres é uma estratégia de saúde pública de máxima importância e pode ser iniciada em diversas fases da vida. O controle rigoroso da pressão arterial, dos níveis de colesterol e da glicemia são pilares essenciais para manter a saúde cardiovascular. A prática regular de atividade física, com recomendação mínima de 150 minutos semanais de intensidade moderada, aliada a uma alimentação equilibrada, com foco na redução do consumo de sal e gorduras saturadas, compõe um plano robusto de prevenção primária.

A cessação do tabagismo é uma medida comprovadamente eficaz na redução de riscos cardiovasculares, e sua promoção deve ser intensificada. Para as mulheres, a realização de check-ups regulares é ainda mais crucial, especialmente a partir dos 40 anos de idade ou no período da menopausa, quando os riscos cardiovasculares tendem a se acentuar devido às mudanças hormonais.

A identificação e o manejo adequado de fatores de risco, o diagnóstico precoce de doenças cardiovasculares e o acesso a tratamentos oportunos e de qualidade são fundamentais para reverter o cenário atual e garantir uma maior expectativa e qualidade de vida para as mulheres brasileiras.

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