A paixão por desbravar a natureza e descobrir recantos ocultos tem levado um entusiasta a mapear e divulgar um número impressionante de cachoeiras. Jean Rafael Di Santi Gomes, com 39 anos, tornou-se uma referência nacional na exploração de quedas d’água, acumulando em uma década a marca de 454 descobertas. A vasta maioria dessas preciosidades naturais está concentrada na Região Metropolitana de Curitiba e no Litoral do Paraná, totalizando 374 locais inéditos ou pouco explorados.
Para muitos, um refúgio; para outros, um refresco. Mas para Jean, uma verdadeira paixão que transformou o hobby em uma missão de catalogação e divulgação. Sua jornada, que começou com trilhas na adolescência no Rio Grande do Sul e se aprofundou ao se mudar para o litoral paranaense, ganhou um novo fôlego ao explorar a imponente Serra do Mar.
A curiosidade inicial, alimentada pela paisagem sempre presente, desabrochou em 2007 com a percorreu do Caminho do Itupava. Foi nesse percurso que Jean testemunhou pela primeira vez cachoeiras de grande porte, um marco que acendeu a centelha de sua futura obsessão.
Embora as trilhas e, em especial, as cachoeiras tenham demorado a ocupar um espaço central em sua vida, Jean sempre foi um indivíduo de múltiplos talentos e ocupações. Trabalhou em diversas frentes para se sustentar, aprendendo desde cedo a importância da adaptação e da resiliência.
A Metodologia da Exploração e a Descoberta do Potencial
Um período particularmente formativo foi o trabalho no IBGE, onde Jean aprimorou suas habilidades em análise de mapas e no uso de ferramentas como o Google Earth. Essa experiência se provou fundamental para a organização de expedições futuras e para a identificação de potenciais descobertas.
O ano de 2015 marcou um ponto de virada significativo. Ao pesquisar sobre o Caminho do Arraial, um dos antigos elos entre o litoral e o primeiro planalto paranaense, Jean se deparou com vestígios de um traçado histórico ainda existente em Morretes. Embora a busca exata pelo caminho planejado não tenha sido totalmente bem-sucedida, a expedição o levou à trilha da cachoeira Salto da Fortuna.
Foi nessa incursão que Jean percebeu sua vocação para a exploração profunda, indo além das trilhas convencionais. Com o tempo, aprimorou seu preparo físico e logístico, reunindo outros indivíduos com o mesmo interesse em desbravar áreas desconhecidas.
Essa busca por locais inexplorados o levou a registrar o primeiro vídeo de cinco picos na Serra da Bocaina, um ponto notável do Paraná com altitude superior ao Anhangava. A conquista demandou um trabalho árduo de abertura de trilhas, muitas vezes com facão, em áreas sem qualquer sinal de passagem humana prévia.
Um Legado de Descobertas e o Impacto na Divulgação
Desde sua primeira expedição solo em 2015, Jean Di Santi consolidou um impressionante acervo de 454 cachoeiras catalogadas. Sua área de atuação principal, a Grande Curitiba e o Litoral do Paraná, concentra a maior parte dessas descobertas, com 374 quedas d’água registradas.
Além do Paraná e Santa Catarina, Jean já explorou regiões do Rio Grande do Sul e São Paulo, e até mesmo uma cachoeira na Guatemala, a La Igualdad, notável por seus aproximadamente 200 metros de queda livre. Essa vasta experiência contribui significativamente para o conhecimento da biodiversidade e da geologia local.
Um aspecto notável de seu trabalho é o pioneirismo na divulgação de muitas dessas quedas d’água. Estima-se que mais de oitenta cachoeiras tenham tido suas primeiras imagens e informações compartilhadas publicamente por Jean. Ele ressalta, no entanto, a cautela em se autodenominar o “descobridor” absoluto, reconhecendo a possibilidade de que populações indígenas ou mateiros locais possam ter tido acesso a esses locais em tempos remotos.
O canal de Jean no YouTube, @JEANDISANTI, com mais de 586 vídeos e 49 mil inscritos, tornou-se uma plataforma essencial para o compartilhamento dessas descobertas, inspirando outros aventureiros e contribuindo para a conscientização ambiental e o ecoturismo.
A metodologia de Jean para a caça a cachoeiras envolve uma combinação minuciosa de análise de cartas topográficas, dados de sistemas militares e, principalmente, o uso intensivo do Google Earth. A identificação de “faixas brancas” em imagens de satélite é um dos principais indicadores de potenciais quedas d’água, que são subsequentemente catalogadas e classificadas por critérios como dificuldade e beleza.
O processo de expedição é cuidadosamente planejado, traçando rotas estimadas no Google Earth que são levadas para o campo. Essa abordagem estratégica, aliada ao conhecimento adquirido em trabalhos anteriores, como no IBGE, otimiza os esforços e aumenta a probabilidade de sucesso na localização das cachoeiras.
Para aspirantes a exploradores, Jean enfatiza a importância da progressão gradual, começando por trilhas de menor dificuldade e sempre buscando a companhia de aventureiros mais experientes. A utilização de aplicativos de navegação offline, como o Wikiloc, é crucial, assim como o uso de equipamentos adequados, como perneiras e vestimenta apropriada para ambientes úmidos e de intensa atividade física.
Jean também oferece um guia acessível para quem deseja iniciar no cachoeirismo exploratório, listando cachoeiras com acesso mais fácil e beleza notável nas proximidades de Curitiba. Locais como a Roncador do Bacaetava em Colombo, a cachoeira do Rio Massaroca em Rio Branco do Sul, a Palmeirinha no Rio Potunã, as cachoeiras do Capivari Mirim e as do Rio Cascata na Graciosa são exemplos de destinos que combinam beleza e acessibilidade para iniciantes.





