A cena cultural de Curitiba lamenta a perda de Efigênia Rolim, artista popularmente conhecida como a “Rainha do Papel de Bala”, que faleceu aos 98 anos. Sua partida encerra uma jornada de mais de seis décadas dedicada à transformação de materiais aparentemente simples em obras de arte singulares, um legado que reverbera pela sua criatividade e resistência. A artista, que residiu seus últimos anos no Asilo São Vicente, no bairro Juvevê, construiu uma identidade artística única, sem formalidades acadêmicas, mas com profundo impacto na cultura popular da capital paranaense.
Nascida em 1931, no interior de Minas Gerais, Efigênia mudou-se para o Paraná na década de 1960, fixando-se em Curitiba em 1971. Sua trajetória foi marcada por desafios e uma vida dedicada à família antes de encontrar seu caminho nas artes aos 60 anos, comprovando que a expressão artística não tem prazo de validade.
A descoberta da poesia foi o primeiro passo de Efigênia no universo das artes. Ela se dedicava a escrever, declamar e cantar seus versos, encontrando na tradicional Feira do Largo da Ordem um espaço para divulgar seu trabalho e, inclusive, publicar seu primeiro livro.
O talento manual de Efigênia logo a levou a experimentar com novas matérias-primas. Foi o papel de bala, material descartável e de baixo valor percebido, que se tornou sua assinatura. Essa escolha emblemática reforça a ideia de que a beleza e a arte podem ser encontradas nos locais mais inesperados, desafiando noções convencionais de valor.
A metamorfose do cotidiano em arte
A habilidade de Efigênia em manipular o papel de bala resultou em um acervo diversificado de esculturas, objetos decorativos e até mesmo figurinos criativos. Sua abordagem única para a reciclagem e a reutilização não era apenas uma técnica, mas uma filosofia de vida que inspirou muitos a olharem para os resíduos com outros olhos.
A crítica e o público reconheceram o valor e a originalidade de suas criações, que transcendenderam as fronteiras locais e foram expostas em diversas partes do mundo. Essa projeção internacional atesta a universalidade da mensagem transmitida por sua arte: a celebração da imaginação e a capacidade humana de gerar beleza a partir do ordinário.
O trabalho de Efigênia Rolim é um testemunho poderoso da força da arte como instrumento de expressão individual e agente de transformação social, demonstrando como a criatividade, aliada à persistência, pode construir um legado duradouro.
Legado de resiliência e inspiração
O legado de Efigênia Rolim transcende suas obras físicas. Ela representa a resiliência de artistas que, muitas vezes à margem das grandes instituições, encontram formas inovadoras de se expressar e de impactar a sociedade. Sua trajetória é uma lição sobre a importância de dar voz a talentos que florescem em contextos diversos.
A “Rainha do Papel de Bala” deixa para Curitiba e para o Brasil a inspiração de que a arte é acessível a todos e que a dedicação e a paixão são combustíveis poderosos para a realização pessoal e para a contribuição cultural. Sua memória continuará a inspirar novas gerações de artistas a explorarem seus potenciais criativos com materiais e ideias não convencionais.






