O município de Paranaguá, no litoral do Paraná, tem enfrentado recorrentes episódios de alagamentos e danos significativos causados por fortes chuvas. Eventos recentes acumularam volumes expressivos de precipitação em curtos períodos, levando a inundações em bairros como Vila São Jorge, Ilha dos Valadares e Serraria do Rocha. As consequências incluem queda de árvores, destelhamento de residências, famílias desalojadas e perdas materiais consideráveis. Diante deste cenário, pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Paraná (UFPR) visam aprimorar as estratégias de prevenção e mitigação de desastres.
Um sistema inovador de monitoramento e alerta de enchentes, batizado de RISCO, está em desenvolvimento para antecipar cenários de risco em áreas urbanas. O projeto, conduzido pelo Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), integra dados de campo sobre o nível da água, precipitação, informações sobre marés e previsões meteorológicas.
Esta abordagem integrada tem como objetivo ampliar a capacidade de planejamento e resposta a eventos extremos. A iniciativa busca reduzir prejuízos materiais e, fundamentalmente, salvaguardar vidas em situações de emergência.
O funcionamento do RISCO baseia-se na medição contínua do nível da água em pontos estratégicos da cidade. Utilizando réguas linimétricas digitais instaladas em campo, o sistema coleta dados que são posteriormente consolidados com informações meteorológicas e de maré. Essa base unificada permite um acompanhamento em tempo real e a projeção de cenários futuros.
Tecnologia de ponta para simulações precisas
Um dos principais diferenciais do RISCO reside na sua capacidade de simular áreas de inundação com alto grau de realismo. Essa precisão é alcançada através de levantamentos topográficos de alta acurácia e o emprego de tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging). O LiDAR gera nuvens de pontos detalhadas que servem de base para simulações tridimensionais do território urbano.
Essa metodologia permite visualizar o ambiente urbano de forma muito próxima da realidade. Assim, facilita a compreensão sobre quais áreas específicas podem ser afetadas conforme o aumento do nível de rios ou da maré, ultrapassando os modelos de mapas tradicionais. O sistema também visa a emissão de alertas mais precisos para a população, utilizando geolocalização.
A primeira fase do projeto já foi concluída, com a definição dos pontos de monitoramento e a validação técnica de uma régua linimétrica, além da instalação inicial de uma delas, que passou por uma Prova de Conceito (PoC) bem-sucedida. As etapas subsequentes contemplam levantamentos topográficos mais detalhados e a utilização de drones equipados com LiDAR para ampliar as simulações digitais.
O RISCO foi concebido com potencial de escalabilidade, podendo ser adaptado a diferentes municípios. Sua integração com políticas de defesa civil, planejamento urbano e adaptação às mudanças climáticas tem atraído o interesse de órgãos governamentais. A ferramenta demonstra grande potencial para se tornar um componente essencial em políticas públicas de prevenção e mitigação de desastres, especialmente em regiões vulneráveis a eventos climáticos extremos.
Paralelamente ao desenvolvimento do RISCO, o município de Paranaguá também se beneficiou do projeto “Periferia Sem Risco”. Este projeto, recém-concluído, teve como foco a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) da cidade.
Um Plano Abrangente para a Resiliência Urbana
O Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Paranaguá, entregue ao município, representa um instrumento vital para a gestão territorial e a proteção da população contra desastres. Fruto de uma parceria entre a UFPR, o Ministério das Cidades e a Fiocruz, o plano detalha diagnósticos e propõe um conjunto de ações para mitigar os impactos de eventos climáticos.
A elaboração do PMRR envolveu um trabalho multi e interdisciplinar, com identificação e mapeamento de áreas de risco. Métodos como reconhecimento de campo, mapeamento participativo e oficinas com a comunidade foram empregados para identificar riscos. Uma oficina técnica com o Comitê Gestor Municipal também foi realizada para apresentar a metodologia aos servidores.
Foram definidas e analisadas 43 localidades prioritárias, abrangendo 99 setores de risco com ameaças de inundações, alagamentos, deslizamentos e riscos tecnológicos, considerando a relação da cidade com o Porto de Paranaguá. A análise considerou tanto as características físicas dos terrenos quanto a vulnerabilidade social das populações residentes, categorizando os setores por grau de risco.
O plano vai além do diagnóstico, apresentando um robusto conjunto de medidas estruturais e não estruturais. As propostas incluem intervenções de engenharia e o uso de Soluções baseadas na Natureza (SbN), como renaturalização de canais, criação de parques lineares e jardins de chuva. Medidas não estruturais, como planos de comunicação de risco e capacitação de lideranças comunitárias para a criação de Núcleos de Defesa Civil (NUDECs), também foram indicadas.
A diretrizes para a revisão do Plano Diretor e de leis de uso e ocupação do solo foram propostas, visando integrar a redução de riscos ao planejamento urbano de longo prazo. O processo foi conduzido de forma participativa, com resultados apresentados à população em Audiência Pública, onde contribuições foram analisadas e incorporadas à versão final do documento.
Com o PMRR entregue, Paranaguá dispõe agora de um guia estratégico para construir uma cidade mais resiliente e segura. A iniciativa consolida o papel do Lageamb na gestão de riscos de desastres no litoral paranaense, promovendo a adaptação às mudanças climáticas e a proteção da população.






