A preservação da memória urbana de uma cidade ganhou um novo capítulo com a recente transferência de centenas de documentos históricos da Secretaria Municipal do Urbanismo para o Arquivo Público Municipal. A iniciativa marca o fim de uma era na gestão de registros que detalham a evolução da ocupação do solo urbano, com o recolhimento de aproximadamente 250 volumes que contêm informações cruciais desde o início do século XX.
Esses acervos revelam métodos de registro que vão desde anotações manuais com canetas tinteiro e esferográficas até o uso de microfilmes e dados extraídos de sistemas de computação rudimentares. A transição reflete o avanço tecnológico na administração pública, onde sistemas digitais agora permitem o acesso rápido e sem custos a informações que antes demandavam a consulta minuciosa de documentos físicos.
O material abrange um vasto período, incluindo Cadernos de Transferência de Aforamento datados entre 1925 e 1931, Títulos de Propriedade de 1927 a 1966, e registros de Transferência de Domínio Pleno que vão de 1931 a 1978. Esta riqueza documental é um testemunho da evolução legal e administrativa das terras urbanas.
O Fim de uma Era de Registros Manuais
A saída dos livros da Secretaria Municipal do Urbanismo representa um marco simbólico, especialmente para servidores que dedicaram anos de suas carreiras à manutenção desses registros. Exemplos notáveis incluem anotações feitas à mão em livros de 2009, ainda utilizando métodos que remetem a práticas escolares de caligrafia. Essa transição é vista com uma mistura de nostalgia e satisfação, pois assegura a continuidade e a acessibilidade da informação.
Profissionais que atuaram na atualização desses volumes, muitas vezes com um cuidado meticuloso que se assemelha ao de um artesão, agora veem o fruto de seu trabalho integrado a sistemas modernos. A aposentadoria iminente de alguns desses servidores, após décadas de dedicação à precisão e conservação dos registros, adiciona uma camada humana a essa mudança organizacional. Eles expressam orgulho em ter contribuído para a história da cidade.
Os documentos que deixam a SMU são parte de um complexo acervo que inclui cerca de 40 mil projetos, milhares de plantas de loteamento, livros foreiros e pastas de quadrantes. Esses materiais narram a história da formação e expansão da cidade, com documentos que remontam ao século XIX. A gestão desses registros passou por diferentes secretarias ao longo do tempo, consolidando a importância de sua preservação.
O Futuro Digital da Memória Urbana
A transferência para o Arquivo Público não se limita ao simples deslocamento físico. O objetivo principal é garantir a preservação de longo prazo desses documentos históricos, através de tratamentos especializados e digitalização. Este processo visa proteger os originais contra os efeitos do tempo e do manuseio constante, ao mesmo tempo em que amplia o acesso à informação.
Com a digitalização completa, os servidores já podem consultar os dados de forma eficiente, eliminando a necessidade de manusear os papéis antigos para atender às solicitações públicas. A expectativa futura é que a própria população possa, através de plataformas digitais, realizar suas pesquisas e mergulhar na rica história da ocupação do solo urbano, promovendo um maior engajamento cívico e um profundo conhecimento sobre o desenvolvimento da cidade.






