O verão 2025/2026 no Paraná foi marcado por um padrão climático atípico, com chuvas irregulares e eventos meteorológicos extremos. Apesar de um volume geral de precipitação abaixo do esperado, o estado testemunhou fenômenos como trombas d’água, nuvens funil e até tornados, segundo dados do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Este cenário desafiador exigiu atenção redobrada da Defesa Civil estadual, que registrou mais de 90 ocorrências em quase 70 municípios.
A influência do fenômeno La Niña foi apontada como fator primordial para a escassez de chuvas. Esse padrão climático tende a reduzir a umidade proveniente da Amazônia, impactando o regime de precipitações no Sul do Brasil. Consequentemente, massas de ar seco predominaram, contrariando a expectativa de chuvas mais frequentes durante o verão.
A falta de chuvas adequadas resultou em estiagem em diversas regiões, com destaque para o Sudoeste, Centro e Oeste do estado. Cidades como Cianorte e Campo Mourão sentiram os efeitos diretos da seca, afetando o cotidiano e, em particular, a produção agrícola.
O setor agropecuário sentiu os impactos da falta de água. A plataforma Simeagro, especializada em inteligência agroclimática, identificou crescimento insatisfatório em lavouras de milho em diversos municípios da região Oeste. O estresse hídrico comprometeu o desenvolvimento dessas plantações, gerando preocupação entre produtores.
Apesar da menor frequência de chuvas, sua intensidade foi notavelmente elevada em certos eventos. Tempestades de grande porte, classificadas como supercelulares, foram responsáveis pela formação de tornados. Esses eventos geraram danos significativos em áreas residenciais e na infraestrutura local.
Eventos extremos e resiliência
Janeiro de 2026 foi particularmente severo, com a ocorrência de dois tornados. Um deles, classificado como F1 na escala Fujita, atingiu a comunidade de Arroio Guaçu, no município de Mercedes, causando danos pontuais. Outro evento, classificado como F2, impactou São José dos Pinhais, afetando centenas de residências e deixando feridos leves.
No mês seguinte, fevereiro, um tornado F0 foi registrado em Foz do Iguaçu, com danos restritos a uma propriedade. Além dos tornados, o estado registrou seis casos de nuvem funil, fenômenos que precedem a formação de tornados, em diversas localidades. Estes eventos foram monitorados de perto pelo Simepar.
Um caso de tromba d’água também foi documentado em Missal, reforçando a imprevisibilidade e a força destrutiva de alguns fenômenos climáticos que assolaram o Paraná.
A Coordenação Estadual de Defesa Civil (Cedec) atuou ativamente, mapeando 91 ocorrências em 67 municípios. Deste total, 46 foram associadas a tempestades e vendavais, fenômenos comuns na estação, mas que neste ano apresentaram maior severidade. Alagamentos e enxurradas também foram registrados, impactando diversas comunidades.
Uma força-tarefa foi implementada no Litoral, região de grande concentração populacional e de riscos durante o verão. A equipe monitorou as condições meteorológicas em tempo real, emitindo alertas e coordenando ações de resposta rápida com as defesas civis municipais.
O Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cegerd) desempenhou um papel crucial na comunicação de risco, emitindo mais de 900 alertas. Destaque para os avisos de risco muito alto, direcionados aos municípios com maior incidência de tempestades severas, como Paranaguá, Matinhos e Pontal do Paraná.
A eficácia dos alertas foi evidenciada pelo Coronel Ivan Fernandes, coordenador executivo da Cedec. Segundo ele, a população tem demonstrado maior atenção aos avisos, o que contribui para a redução da exposição a situações de perigo e, consequentemente, diminui a ocorrência de acidentes e vítimas.
As temperaturas durante o verão 2025/2026 também apresentaram particularidades. Capanema registrou o pico de 39,7°C, enquanto General Carneiro apresentou a menor marca, com 8°C. Telêmaco Borba registrou sua temperatura mais alta desde 1997, indicando um aquecimento localizado significativo.
Períodos de calor intenso, especialmente entre dezembro e fevereiro, impactaram o Litoral, a Grande Curitiba e os Campos Gerais, com temperaturas que ultrapassaram a média histórica. O Oeste e o Sudoeste do estado também registraram temperaturas máximas e médias acima do usual.
Impacto no cotidiano e a necessidade de adaptação
Os dados meteorológicos deste verão lançam luz sobre a vulnerabilidade das regiões paranaenses a eventos climáticos extremos. A conjunção de estiagem prolongada com a ocorrência de fenômenos violentos como tornados e trombas d’água exige um debate aprofundado sobre mudanças climáticas e suas manifestações regionais.
A preparação e a capacidade de resposta da Defesa Civil, aliadas a um sistema de monitoramento meteorológico robusto, são fundamentais para mitigar os impactos. No entanto, a recorrência desses eventos sugere a necessidade de estratégias de adaptação de longo prazo, que incluam desde o planejamento urbano até o desenvolvimento de práticas agrícolas mais resilientes.
A articulação entre órgãos governamentais, instituições de pesquisa e a sociedade civil é essencial para construir um futuro mais seguro diante de um clima cada vez mais imprevisível. A análise detalhada dos dados e a comunicação clara dos riscos à população continuam sendo pilares para a gestão de desastres.






