Sanepar resgata fauna em Miringuava durante enchimento

🕓 Última atualização em: 25/02/2026 às 13:29

A crescente demanda por água potável em grandes centros urbanos impõe desafios complexos à gestão de recursos hídricos e à preservação ambiental. A construção de grandes reservatórios, embora essencial para garantir o abastecimento de milhões de pessoas, invariavelmente gera impactos significativos na fauna local. Nesse contexto, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) tem implementado ações emergenciais de resgate e realocação de animais silvestres em decorrência do enchimento do Reservatório Miringuava, em São José dos Pinhais.

Com o avanço do volume de água, equipes especializadas, compostas por biólogos, veterinários e técnicos, têm percorrido as áreas que gradualmente se tornam ilhas para retirar animais que ficam isolados. A iniciativa busca mitigar os efeitos de um empreendimento de larga escala, projetado para armazenar 38,2 bilhões de litros de água e suprir a necessidade de milhões de habitantes na Região Metropolitana de Curitiba.

O diretor-presidente da Sanepar, Wilson Bley, destaca o compromisso da empresa em conciliar a segurança hídrica com a responsabilidade ambiental. Ele ressalta que, apesar dos impactos inevitáveis de uma obra desta magnitude, todos os esforços são direcionados para minimizá-los em cada etapa do processo.

A Importância da Fauna Menor na Cadeia Ecológica

O resgate embarcado tem revelado que cerca de 90% dos animais retirados são de herpetofauna, ou seja, anfíbios e répteis. Embora de menor porte, esses grupos desempenham um papel crucial no equilíbrio dos ecossistemas. Ações para protegê-los são fundamentais para a sustentabilidade da cadeia alimentar.

A predação de insetos e pragas por anfíbios e répteis contribui para o controle populacional desses organismos. Além disso, eles servem de alimento para outras espécies, conectando-se a níveis tróficos superiores. Ignorar a importância desses animais pode, a longo prazo, gerar desequilíbrios que afetam desde pequenos invertebrados até grandes mamíferos.

A coordenadoria de campo da Jardiplan, empresa parceira da Sanepar, enfatiza que o isolamento dos animais em ilhas devido ao aumento do nível do reservatório facilita a visualização e o resgate. Essa observação, segundo Bruno Nadalin, coordenador de campo da Jardiplan, é uma consequência direta da formação do lago.

Após a captura, os animais passam por uma avaliação clínica detalhada. Aqueles considerados aptos a retornar ao ambiente natural são soltos em áreas seguras e com características ecológicas semelhantes às de sua origem, a fim de evitar que retornem a zonas a serem alagadas. Animais que necessitam de cuidados médicos recebem tratamento no Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) ou são encaminhados a clínicas veterinárias conveniadas.

Gilson Maruno, biólogo da Gerência de Gestão Ambiental da Sanepar, reforça a prioridade em garantir que os animais resgatados sejam realocados em habitats seguros e propícios, mantendo-os dentro do ecossistema da bacia do Miringuava. Essa abordagem visa a preservação da biodiversidade local.

Compensação Ambiental e Inovação em Projetos Hídricos

Como medida compensatória pela área alagada, a Sanepar estabeleceu um corredor de biodiversidade com 7 milhões de metros quadrados, uma extensão 62% maior do que a área destinada à formação do reservatório. Esta iniciativa visa criar um refúgio ecológico e garantir a continuidade da vida silvestre.

Sergio Augusto Morato, coordenador geral do projeto pela Jardiplan, destaca a Sanepar como pioneira ao iniciar a restauração ambiental do local antes mesmo da formação do lago. Essa prática, considerada atípica em obras hídricas, atende às demandas da comunidade científica por modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.

A recuperação da vegetação e a introdução de animais no novo habitat buscam prevenir impactos em ecossistemas já consolidados. Segundo Morato, a revitalização das margens do reservatório minimiza o risco de perda dos animais resgatados, representando um ganho ambiental significativo.

A barragem do Reservatório Miringuava visa aumentar em 25% a capacidade de reserva de água do Sistema de Abastecimento Integrado de Curitiba (SAIC). A obra ampliará o tratamento de água da Estação de Tratamento de Água (ETA) Miringuava, dobrando sua capacidade de 1.000 para 2.000 litros por segundo. Este aumento na capacidade de reservação é crucial para atender a uma população de 3,5 milhões de habitantes na Região Metropolitana.

O reservatório, com uma área destinada ao alagamento de 4,3 milhões de metros quadrados, equivalente a 602 campos de futebol, representa um investimento estratégico na segurança hídrica. Em condições normais de chuva, estima-se que o enchimento completo levará, no mínimo, nove meses, consolidando um novo patamar de abastecimento para a região.

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