O Paraná está se consolidando como um polo de inovação em combustíveis sustentáveis, com um foco estratégico na descarbonização do setor de transportes. A iniciativa estadual, que abrange tanto a mobilidade urbana quanto o transporte de cargas pesadas, visa criar um ecossistema energético mais limpo e economicamente viável. A abordagem é multifacetada, integrando a eletrificação de veículos com o uso de biometano, um biocombustível promissor derivado de resíduos orgânicos.
Essa estratégia ambiciosa busca diversificar a matriz energética do transporte, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa. Ao transformar subprodutos da agroindústria em fontes de energia, o estado não apenas combate a poluição, mas também fomenta uma nova cadeia produtiva, gerando valor a partir de fluxos de resíduos antes considerados um problema ambiental.
A criação de corredores rodoviários sustentáveis é um pilar central deste plano. Esses corredores visam expandir a infraestrutura de abastecimento para veículos movidos a gás natural e, crucialmente, biometano. A iniciativa, que conta com a articulação entre órgãos governamentais, cooperativas, empresas de transporte e concessionárias de energia, estabelece um novo paradigma para a logística no estado.
Avanços na Infraestrutura e Produção de Biometano
Um marco importante na implementação dessa estratégia foi o lançamento da primeira rota de biometano entre Londrina e Paranaguá pela Compagas. Esta via de 730 km conecta o Norte ao Litoral do estado, permitindo que veículos pesados utilizem gás natural e, futuramente, biometano como combustível. Atualmente, 13 postos estrategicamente localizados já oferecem essa infraestrutura, facilitando a integração com estados vizinhos como São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.
Paralelamente, o estado está focando no interior, onde a produção rural de biomassa é expressiva e a infraestrutura de gás natural é limitada. O objetivo é levar o biometano para estas regiões, aproveitando o potencial de produção local e reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.
O biometano, quimicamente idêntico ao gás natural, oferece uma vantagem significativa: sua origem é renovável. Produzido a partir da digestão anaeróbica de dejetos animais, vinhaça de cana-de-açúcar e resíduos de aterros sanitários, ele representa uma solução de economia circular. Ao capturar o metano, um gás com potencial de aquecimento global até 21 vezes superior ao CO2, a biodigestão evita emissões nocivas para a atmosfera.
O programa RenovaPR, por exemplo, desempenha um papel crucial no estímulo à produção de biometano. Ele oferece linhas de financiamento com equalização de juros e incentivos fiscais para a aquisição de equipamentos, como biodigestores. Essa política visa transformar os dejetos da produção de proteína animal, como suínos e aves, em um ativo econômico e ambientalmente positivo.
A meta para 2035 é ambiciosa: substituir cerca de 15% do diesel consumido no Paraná por biometano, um passo significativo na descarbonização do setor. A economia gerada para transportadoras e o potencial de aumento da competitividade da carne produzida no estado no mercado internacional, devido a exigências ambientais crescentes, são fatores que impulsionam essa transição.
Exemplos práticos já demonstram o sucesso da iniciativa. A cooperativa Primato, em Toledo, opera uma bioplanta que processa centenas de milhares de litros de dejetos suínos diariamente, gerando biometano para abastecer sua frota e fertilizante orgânico. Essa operação não só reduz custos operacionais em até 35% em comparação com o diesel, mas também fecha um ciclo virtuoso de produção sustentável.
A empresa Potencial também está investindo na produção e distribuição de biometano, com planos de interligar sua planta em Lapa às redes de distribuição em Araucária, um investimento total de R$ 200 milhões. Essa expansão visa aumentar a oferta do biocombustível e sua capilaridade no mercado.
A Diversificação Energética e o Futuro da Mobilidade
A estratégia do Paraná não se limita ao biometano. O estado também tem investido em eletromobilidade, com a Copel gerenciando uma rede de 12 pontos de recarga para veículos elétricos ao longo da BR-277 e em áreas urbanas. Essa eletrovia de 730 km, que conecta Paranaguá a Foz do Iguaçu, é uma das mais extensas do país e tem registrado um volume crescente de recargas, indicando a adoção de veículos elétricos.
Essa abordagem diversificada, que engloba eletromobilidade, biometano, etanol e biodiesel, consolida o Paraná como um estado proativo na transição energética. A visão é de um futuro onde a mobilidade seja mais limpa, eficiente e economicamente vantajosa, alinhada com programas federais como o Combustível do Futuro e legislações recentes que incentivam a descarbonização e a certificação de origem do biometano.
A redução potencial de até 60% no custo por quilômetro rodado com o uso de biometano puro, aliada à melhoria da imagem internacional da produção agropecuária paranaense, reforçam o caráter estratégico e promissor desta nova cadeia produtiva. O biometano emerge não apenas como um combustível alternativo, mas como um vetor de desenvolvimento econômico e ambiental para o estado.






