A piscicultura brasileira, com destaque para o Paraná como líder nacional em Valor Bruto de Produção (VBP) de pescados cultivados, enfrenta desafios significativos durante os períodos de altas temperaturas. A produção estadual atingiu R$ 1,99 bilhão, impulsionada majoritariamente pela tilápia, espécie que domina os tanques de criação.
O contexto climático atual, com ondas de calor intensas, exige dos produtores uma atenção redobrada ao manejo dos viveiros. A qualidade da água e as condições ambientais tornam-se fatores cruciais para garantir não apenas o desenvolvimento saudável dos peixes, mas também para evitar perdas significativas de animais.
A temperatura ideal para o metabolismo e crescimento da maioria das espécies cultivadas, como a tilápia, situa-se entre 24ºC e 30ºC. Neste intervalo, os animais apresentam maior apetite e uma eficiência superior na conversão de alimento em massa corporal, caracterizando o período de maior produtividade.
No entanto, as temperaturas elevadas, frequentemente superando os 30ºC em regiões produtoras como Toledo, no Paraná, representam um estresse fisiológico para os peixes. A alta densidade de estocagem, que pode chegar a 15 indivíduos por metro quadrado em alguns casos – um aumento considerável em relação às práticas antigas de 2 a 3 peixes por m² – agrava a situação, intensificando a demanda por oxigênio.
Monitoramento e Manejo como Chave para a Produtividade
A gestão da qualidade da água nos tanques de piscicultura requer um monitoramento constante de diversos parâmetros físico-químicos. A concentração de oxigênio dissolvido é um dos mais críticos, especialmente durante as noites, quando as algas, embora realizem fotossíntese durante o dia, passam a consumir oxigênio. A falta deste gás pode levar à hipóxia e, consequentemente, à mortalidade dos peixes.
Para mitigar esses riscos, a utilização de sistemas de aeração contínua é recomendada, especialmente em unidades com alta biomassa (acima de 5 toneladas por hectare). O monitoramento permite otimizar o uso desses equipamentos, evitando o consumo excessivo de energia e garantindo níveis adequados de oxigênio, idealmente entre 4 e 5 mg/L.
A oferta de alimento também necessita de ajustes precisos. O aumento da temperatura e da atividade metabólica dos peixes não se traduz, linearmente, em maior consumo de ração. Uma alimentação inadequada, especialmente em condições de baixa oxigenação ou temperaturas extremas, pode levar à sobra de ração, que se degrada e compromete a qualidade da água, criando um ciclo vicioso de problemas.
A estratégia de alimentação deve considerar os níveis de oxigênio. Em manhãs com oxigenação baixa, o fornecimento de ração deve ser postergado para um momento em que os níveis se recuperem. Alternativamente, pode-se dividir a alimentação em intervalos maiores ou suspender uma das refeições diárias em dias de temperatura acima de 30ºC, prevenindo desperdícios e poluição da água.
Avanços Tecnológicos e a Busca por Ambientes Ideais
Além do oxigênio, outros parâmetros como pH, alcalinidade, níveis de amônia e nitrito, dureza e transparência da água são indicativos da qualidade do ambiente para os peixes. Um ciclo completo de engorda, que visa atingir pesos entre 900g e 1kg, dura aproximadamente 210 dias, mas a otimização do manejo pode reduzir este tempo.
As inovações na infraestrutura dos viveiros também desempenham um papel crucial. O aumento da profundidade dos tanques, que evoluiu de 1,5 metro para até 4 metros em novas instalações, contribui para a estabilização dos parâmetros de qualidade da água. Tanques mais profundos oferecem maior volume de água, o que atenua as flutuações de temperatura e outros indicadores, criando um ambiente mais propício ao desenvolvimento contínuo e à produtividade.
A constante busca por melhorias no manejo e na infraestrutura reflete o compromisso do setor com a sustentabilidade e a eficiência da piscicultura. A compreensão aprofundada das necessidades fisiológicas dos peixes e a adaptação às condições ambientais, especialmente em cenários de mudanças climáticas, são essenciais para consolidar a liderança brasileira na produção de pescados cultivados.






