Paraná brilha internacionalmente em combate a superbactérias

🕓 Última atualização em: 03/02/2026 às 12:38

O combate à resistência antimicrobiana (RAM), uma ameaça global crescente à saúde pública, tem ganhado contornos de protagonismo em iniciativas nacionais e internacionais, com o estado do Paraná figurando como um centro de excelência em vigilância e diagnóstico. Um artigo científico publicado em janeiro de 2026 na renomada revista Frontiers in Public Health, com sede na Suíça, valida o modelo de monitoramento desenvolvido e implementado no estado, que agora serve como base para as estratégias adotadas em todo o Brasil.

O estudo, fruto de uma colaboração entre pesquisadores do Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen-PR) e da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), detalha a evolução das práticas brasileiras na gestão do uso e diagnóstico de antimicrobianos. A publicação, que alcançou leitores em diversos continentes em poucas semanas, ressalta o papel central do Paraná na consolidação de um sistema de vigilância robusto.

Um Marco na Vigilância Global de Resistência Antimicrobiana

O principal ponto de destaque é a atuação do Lacen-PR como ponto focal nacional e laboratório de referência para o BR-GLASS, o sistema brasileiro de vigilância da resistência antimicrobiana. Esta iniciativa se alinha diretamente ao programa global GLASS da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No BR-GLASS, o laboratório paranaense é o responsável técnico pela validação de análises cruciais para o monitoramento da circulação de bactérias multirresistentes em território nacional. Esses dados validados formam a espinha dorsal das informações brasileiras repassadas à base de dados global, permitindo uma visão panorâmica e detalhada da problemática.

A pesquisa detalha a mudança de paradigma na vigilância, que antes se concentrava apenas em resultados laboratoriais e agora incorpora, de forma integrada, dados epidemiológicos, clínicos e populacionais. Essa abordagem holística, conhecida como One Health, reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental na propagação de microrganismos resistentes.

O impacto dessa integração é significativo. A pesquisa evidenciou que a combinação de informações laboratoriais com o perfil completo do paciente possibilita respostas mais rápidas e assertivas no tratamento e controle de infecções. O uso de tecnologias aceleradas, como as empregadas no Programa VigiRAM, permitiu reduzir em até 39 horas o tempo necessário para identificar enzimas de resistência, agilizando a aplicação de terapias adequadas e a contenção de surtos em ambientes hospitalares.

O reconhecimento internacional, destacado pela publicação em uma revista de alto rigor técnico, sublinha que o modelo paranaense transcende a simples execução de exames. Ele se estabelece como um centro de produção de inteligência científica de ponta, funcionando como uma vitrine tecnológica que fortalece a segurança sanitária não apenas do estado, mas de todo o país.

O Legado e os Desafios Futuros

A consolidação do Paraná como referência nacional no combate à RAM é resultado de uma estratégia definida pelo Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Geral de Laboratórios de Saúde Pública (CGLAB). A escolha do Lacen-PR como ponto focal laboratorial para o projeto BR-GLASS atende às exigências do programa global GLASS, garantindo a padronização na coleta e análise de dados em todo o território brasileiro.

A diretora do Lacen-PR, Célia Fagundes Cruz, ressalta que o reconhecimento advém de investimentos contínuos em infraestrutura e na capacitação da equipe técnica. O laboratório, segundo ela, tornou-se o “coração de uma rede” que assegura dados precisos e alta tecnologia para a saúde pública brasileira, alimentando ativamente bases globais de monitoramento.

O cenário da resistência antimicrobiana é preocupante. Estima-se que, anualmente, cerca de 33.200 mortes no Brasil sejam diretamente atribuídas a infecções por bactérias resistentes. A detecção de genes de resistência específicos, como a New Delhi Metalobetalactamase (NDM), apresentou um aumento alarmante, saltando de 4,2% em 2015 para 23,8% em 2022, uma tendência que foi acentuada durante a pandemia de COVID-19.

Diante desse quadro, a continuidade do investimento em sistemas de vigilância integrados e na pesquisa é fundamental. A ampliação do escopo de atuação do modelo para outras regiões do país e a aprimoramento constante das tecnologias diagnósticas são passos cruciais para mitigar os impactos dessa crise de saúde pública e garantir o acesso a tratamentos eficazes para as futuras gerações.

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