A convergência entre a arte contemporânea e a preservação da memória urbana ganha nova expressão em Curitiba. Um projeto inovador está convidando a comunidade a reinterpretar os espaços urbanos através de uma perspectiva artística e colaborativa, desmistificando a criação artística e aproximando o público do processo criativo.
A iniciativa, que se desenrola no ateliê da Academia Alfredo Andersen, tem como protagonista o artista paranaense Rafael Codognoto. Sua residência artística propõe a criação de um extenso mapa têxtil, explorando os arredores do museu que já foi residência do renomado pintor Alfredo Andersen.
O cerne da proposta reside na coleta de objetos encontrados nas ruas. Estes materiais, muitas vezes descartados e invisíveis no cotidiano, são a matéria-prima para obras que buscam conferir um novo significado a elementos comuns. A prática, que se estende até o início de março, está aberta à participação pública.
Codognoto adota uma abordagem metodológica que prioriza a ressignificação de materiais. Por meio de técnicas como a assemblagem e a arte têxtil, ele transforma objetos cotidianos em “objetos-pintura”, onde a própria materialidade e sua disposição comunicam aspectos visuais sem a necessidade direta de pigmentos tradicionais.
A arquitetura da memória e a arte participativa
A residência artística, com título provisório “Trajetos de Alfredo Andersen”, parte de uma premissa de imersão no território. A ideia é traçar um mapa visual e tátil dos quarteirões que circundam o Museu Casa Alfredo Andersen, revivendo, de certa forma, os caminhos percorridos pelo mestre da pintura paranaense.
A interação com o público é um componente fundamental deste projeto. De terça a sábado, antes mesmo da abertura oficial do museu, o artista convida os interessados a se juntarem a ele em caminhadas pelas ruas adjacentes. Durante esses passeios, são recolhidos diversos itens que, posteriormente, serão incorporados às obras.
Para Codognoto, cada objeto carrega consigo uma carga de história e afeto. A intervenção artística, que pode envolver processos como encapsulamento ou queima controlada, não visa apagar a identidade original do material, mas sim realçá-la dentro de uma nova narrativa visual.
A produção das obras é um processo em constante evolução, onde a imprevisibilidade é valorizada. O artista explica que a composição final é um resultado da interação entre os materiais encontrados, as intervenções realizadas e a própria percepção que se constrói ao longo do processo. A colaboração é, portanto, um elemento intrínseco à criação.
A costura, no contexto deste projeto, emerge como o elemento unificador. Os visitantes são encorajados a participar ativamente, bordando os trajetos e conectando fragmentos que, à primeira vista, podem parecer desconexos. Essa ação permite entrelaçar memórias pessoais à história intrínseca dos objetos coletados.
A dialogia entre a obra de Codognoto e o legado de Alfredo Andersen é um ponto de interesse. O artista declara que sua pesquisa busca ecoar os passos de Andersen, observando a paisagem que inspirou o pintor, e reinterpretá-la através de uma linguagem tridimensional e tátil, com objetos que evocam a essência de suas pinturas.
Democratizando o acesso e a criação artística
A participação na residência de Rafael Codognoto é completamente gratuita e não requer inscrição prévia. O artista se encontra em frente ao museu pontualmente às 8h50, de terça a sábado, pronto para iniciar as caminhadas de coleta, que têm duração aproximada de 25 minutos.
Após a exploração e coleta de materiais, os participantes são convidados a conhecer o acervo do museu e, em seguida, visitar o ateliê. Neste espaço, é possível acompanhar o desenvolvimento das obras e apreciar os trabalhos já concebidos durante o período de residência, compreendendo a evolução do projeto.
Rafael Codognoto, bacharel em Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, dedica sua carreira à exploração da carga afetiva presente em objetos descartados. Sua obra frequentemente aborda temas sociais, ambientais e urbanos, com ênfase na memória, gênero e questões de repressão.
O artista, que já participou de exposições relevantes, como “Maria Bueno e Tantas Outras” no próprio Museu Casa Alfredo Andersen em 2022, reside em Curitiba e mantém um espaço expositivo e ateliê em sua residência no bairro Boa Vista. A residência no Museu Casa Alfredo Andersen representa uma nova oportunidade para aprofundar essa conexão com a história e a paisagem local.






