A educação científica, quando aliada à ação comunitária, pode catalisar transformações ambientais significativas e promover o engajamento cívico. Um exemplo notório dessa sinergia emerge de Rolândia, no Paraná, onde um grupo de estudantes de ensino médio e fundamental transformou a investigação científica em uma força motriz para a revitalização de um ecossistema local.
O protagonismo juvenil tem se mostrado uma ferramenta poderosa na conscientização e na busca por soluções para desafios ambientais urbanos. O maior lago da cidade, o San Fernando, outrora marcado pela presença de espécies arbóreas exóticas e sinais de degradação hídrica, tornou-se o centro de um projeto pedagógico inovador.
Por meio do clube de ciências Discovery Kennedy’s, fundado em 2024 no Colégio Estadual Cívico-Militar Presidente Kennedy, alunos sob a orientação da professora de Biologia Eglaia Carvalho Cheron e do professor de Matemática Carlos Marcelo Campaner, iniciaram um meticuloso levantamento de dados.
A metodologia empregada incluiu o mapeamento detalhado da flora e fauna circundantes, bem como a realização de análises físico-químicas da água. Estes estudos preliminares foram essenciais para a identificação de problemas como a predominância de espécies exóticas, como o eucalipto, que competem desfavoravelmente com a vegetação nativa, e a presença de níveis inadequados de nitrogênio no corpo d’água.
Um Modelo de Engajamento Cívico e Ambiental
A iniciativa transcendeu os muros da sala de aula, estabelecendo um elo direto com as autoridades municipais. A apresentação dos resultados do projeto em uma sessão na Câmara Municipal de Rolândia chamou a atenção das esferas decisórias para a necessidade urgente de intervenções.
O estudo científico conduzido pelos estudantes, que apontou a presença de 377 espécies de eucalipto e seus impactos negativos no ecossistema local, serviu como base para a formulação de um plano de rearborização. A prefeitura, em resposta às evidências apresentadas, comprometeu-se a implementar um projeto de replantio com espécies nativas.
Essa colaboração demonstra como o conhecimento científico gerado em ambiente escolar pode se converter em políticas públicas efetivas, alinhando a necessidade pedagógica à responsabilidade ambiental da gestão pública. A escolha de espécies nativas visa não apenas à recuperação da biodiversidade, mas também à melhoria da qualidade da água e à restauração do equilíbrio ecológico do lago.
A diretora do colégio, Gessiely Aparecida Sperandio, ressalta o valor formativo e social do projeto. Para ela, o clube de ciências é sinônimo de protagonismo juvenil, empoderamento e desenvolvimento de um senso de pertencimento e responsabilidade social. As boas práticas incentivadas ultrapassam o ambiente escolar, contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes e atuantes.
A professora Eglaia Cheron destaca o processo de letramento científico dos alunos, que aprenderam a transitar entre a teoria e a prática. A análise da qualidade da água, que envolveu a medição de temperatura e pH, foi uma experiência particularmente cativante para os jovens cientistas, que puderam vivenciar a aplicação concreta do conhecimento adquirido.
Desdobramentos e Inspirações Futuras
O sucesso do projeto no lago San Fernando abriu portas para o reconhecimento em diversas feiras de ciências. O Discovery Kennedy’s participou da Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (FECCI), onde apresentou quatro trabalhos relacionados às suas análises, conquistando o prêmio “Nosso Clube é Show”.
O aluno Luiz Miguel Mello da Silva, de 14 anos, relata a realização de um sonho ao participar da feira em Curitiba, destacando a inspiração e o aprendizado obtidos com os trabalhos de outros estudantes. Essas experiências ampliam horizontes e reforçam a importância da pesquisa científica para o desenvolvimento pessoal e acadêmico.
Outras premiações importantes incluem dois troféus na Feira de Inovação, Tecnologia e Ciência (FITEC), um pela rigorosidade metodológica e outro pela relevância ambiental. Essas conquistas renderam o credenciamento para a participação na Feira Nordestina de Ciências e Tecnologia (FENECIT), em Recife, evento que a escola agora avalia a viabilidade de levar os alunos.
Ademais, a iniciativa escolar demonstrou versatilidade ao explorar outros temas. O cultivo de abelhas Jataí, por exemplo, surgiu da percepção de um estudante sobre a importância da preservação de espécies nativas e da possibilidade de integrá-la ao ambiente escolar, conscientizando sobre a fragilidade dos insetos polinizadores e sua relação com a flora local.
Projetos como a “Mão Biônica”, estudos sobre eficiência energética e magnetismo, exemplificam a amplitude de interesses e competências desenvolvidas no clube. A professora Eglaia Cheron enfatiza que a curiosidade dos próprios alunos impulsiona a criação de novas frentes de pesquisa, solidificando o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como o respeito às diferenças e a superação de desafios, como viagens a cidades distantes para apresentar seus trabalhos.






