A G2 Cia de Dança deu início à sua aguardada temporada de 2026 com uma apresentação que ressoou profundamente no público de Maringá, no noroeste do Paraná. O espetáculo, intitulado “GAG – Uma livre adaptação de Heinrich Von Kleist sobre o Teatro de Marionetes”, atraiu aproximadamente 450 pessoas ao Teatro Calil Haddad, marcando o começo de um percurso itinerante por diversas cidades paranaenses.
A performance, que contou com entrada franca, foi mais do que uma simples exibição artística. Ela se propôs a ser um catalisador de conexões humanas e de reflexão sobre a importância da arte ao longo da vida, especialmente para o público sênior.
Após o espetáculo, os artistas da companhia promoveram um encontro aberto, direcionado em particular a pessoas idosas. Neste diálogo, bailarinos compartilharam suas vivências sobre o processo criativo por trás de “GAG”, os desafios inerentes à manutenção de uma carreira artística nos palcos e a relevância da dança e da expressão artística na terceira idade. A iniciativa sublinhou a experiência de um grupo cujos integrantes, em sua maioria, ultrapassam os 60 anos de idade.
A emoção foi palpável entre os presentes. Geni Boni, 86 anos, que percorreu cerca de 17 km de Marialva até Maringá com seu grupo, expressou a singularidade da experiência. “Foi a maior alegria da minha vida ter vindo hoje aqui. É muito lindo, uma experiência única”, declarou, compartilhando o fato de ser sua primeira vez em um teatro.
Maria de Fátima dos Santos Conceição, 67 anos, encontrou no espetáculo um elo com a infância, despertando memórias e sentimentos adormecidos. “Fez eu reviver a minha vida. A gente percebe que, por mais anos que tenha, existe sempre uma criança dentro de nós. Eles transmitiram isso no palco”, comentou, evidenciando a capacidade da arte de transcender o tempo.
A metamorfose da cena e a condição humana
“GAG”, sob a direção de Gabriel Villela e direção adjunta de Ivan Andrade, é uma obra que se nutre do ensaio “Sobre o Teatro de Marionetes” de Heinrich von Kleist. A peça entrelaça a dança contemporânea com elementos do teatro e do universo circense, propondo uma exploração profunda da condição humana.
Em cena, os bailarinos navegam entre o que é humano e o que é fantasmagórico. A metáfora das marionetes serve como um veículo para questionar a autonomia, o controle e a liberdade individual. A performance levanta debates sobre a nossa própria existência, questionando o quanto somos regidos por forças externas ou internas, de maneira semelhante a bonecos em um palco.
A forma como os artistas executaram a ideia das marionetes impressionou também o público jovem. Maria Eduarda Oliveira, estudante de 10 anos, descreveu a sensação: “Foi muito legal. Parece mesmo que eles viram bonecos, como se alguém estivesse mexendo neles”. A atuação da G2 Cia de Dança capturou a atenção de todas as faixas etárias, demonstrando a universalidade da linguagem corporal e temática.
Willar Carolina Braga da Silva, editora de imagens com formação em balé, elogiou a excelência estética da produção. Ela ressaltou a harmonia entre cenografia, trilha sonora e figurinos, evocando memórias de sua própria infância e celebrando a longevidade e a presença de palco dos bailarinos.
Circulação e legado de uma companhia sênior
A jornada da G2 Cia de Dança não se encerra em Maringá. A companhia prossegue com sua agenda de apresentações pelo estado, com próximos compromissos em Campo Mourão (dia 10) e Guarapuava (dia 14), ambos com entrada gratuita e necessidade de retirada antecipada de ingressos via Sympla. Em abril, as apresentações continuam em Francisco Beltrão (17) e Telêmaco Borba (21).
As atividades programadas incluem também encontros e conversas com os artistas, fomentando um diálogo contínuo entre a companhia e as comunidades visitadas. Esta abordagem visa não apenas disseminar a arte, mas também promover a troca cultural e a acessibilidade.
Com 25 anos de trajetória, a G2 Cia de Dança consolida-se como um marco na paisagem cultural brasileira. Fundada com a inspiração de uma companhia pública holandesa de bailarinos master, o grupo é a única companhia sênior em atividade na América Latina. Seu propósito central é a exploração de novas estéticas na dança contemporânea, priorizando a liberdade criativa e a valorização da maturidade artística de seus integrantes.
O elenco atual é formado por nove bailarinos experientes, que dividem o palco em “GAG” com o ator e músico convidado Renet Lyon. A longevidade e a qualidade artística da companhia atestam a força da experiência e a relevância de espaços que celebram a arte em todas as fases da vida, desafiando percepções sobre envelhecimento e performance.






