A vitalidade da expressão artística em idades avançadas ganha destaque com a G2 Cia de Dança, um coletivo que desafia estereótipos sobre o envelhecimento e a prática artística. A companhia, pioneira na América Latina como grupo sênior de dança, celebrou recentemente 25 anos de trajetória, reafirmando que a paixão pela arte não conhece barreiras etárias. Sua mais recente apresentação em Guarapuava, parte de uma turnê estadual, atraiu centenas de espectadores, evidenciando o poder de conexão da dança e do teatro.
O espetáculo “GAG – Uma livre adaptação de Heinrich Von Kleist sobre o Teatro de Marionetes” encantou a plateia com uma abordagem poética e reflexiva. A montagem, que transita entre o humano e o fantasmagórico, utiliza a metáfora das marionetes para explorar a condição humana. A direção de Gabriel Villela, com co-direção de Ivan Andrade, tece uma narrativa que dialoga com o ensaio de Heinrich von Kleist, adicionando camadas de referências do teatro e do universo circense.
Um dos aspectos notáveis da produção é sua estética visual. Os figurinos, confeccionados artesanalmente em Minas Gerais, utilizam teares manuais e corantes naturais. Essa escolha confere à cena uma delicadeza e um simbolismo que enriquecem a experiência do público, criando uma atmosfera cênica única.
A iniciativa da G2 Cia de Dança não se restringe à performance. A companhia tem dedicado esforços à acessibilidade e à inclusão, promovendo ensaios abertos e encontros com a comunidade. Em Guarapuava, estudantes de Artes da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e membros da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) puderam vivenciar de perto o processo criativo.
Esses encontros proporcionaram um diálogo valioso entre artistas e público. As discussões sobre o processo criativo e o trabalho da companhia permitiram que os espectadores compreendessem a construção do espetáculo e expressassem sua admiração. Para muitos, especialmente para idosos que compunham grande parte da plateia, a experiência foi a primeira de muitas outras a serem vividas no teatro.
A importância de ver artistas maduros atuando profissionalmente foi ressaltada por Luara Stecinski, comunicadora e bailarina. Ela compartilhou sua trajetória pessoal, destacando como a G2 Cia de Dança serve de inspiração para aqueles que retornam à dança na vida adulta ou que iniciam atividades artísticas mais tarde. “Enxergar a G2 fazendo arte depois dos 60 anos, vivendo a dança e o teatro, é muito inspirador. Mostra que a gente também pode chegar lá”, afirmou.
A Plataforma Cultural e a Quebra de Barreiras Etárias
Para estudantes de Artes da Unicentro, a experiência foi igualmente transformadora. Isabela dos Santos Ribeiro, aluna do curso, descreveu a apresentação como algo inesquecível, que alimenta o coração com amor e vontade. Ela particularmente valorizou a integração de diferentes linguagens artísticas na montagem, como a dança e o teatro, que se complementam de forma notável.
Marcelo Ferreira Garcia, colega de curso, encontrou na arte um refúgio e um estímulo. A timidez, que antes era um obstáculo, tem sido superada através de sua dedicação às artes. A oportunidade de conhecer o trabalho de artistas com mais de 60 anos trouxe uma nova perspectiva, demonstrando que a expressão artística não exige um perfil específico de extroversão.
A acessibilidade também foi um ponto de destaque. Giovana Oliveira, que possui deficiência auditiva, acompanhou o espetáculo com facilidade graças à tradução em Libras, ressaltando a importância da inclusão para a fruição cultural. Ela agradeceu pela oportunidade e pela garantia de acesso, reconhecendo o tema relevante abordado pela peça.
A vereadora Rita Felchak, em Guarapuava, e sua irmã, Dody Sanman, atriz e produtora cultural, testemunharam a emoção da plateia. Felchak enfatizou que o espetáculo é uma prova viva de que a idade não é um impeditivo, mas sim um estímulo para a continuidade na vida artística. A oportunidade de presenciar a vitalidade dos artistas mais velhos serviu como uma lição valiosa para os jovens.
Legado e Expansão da Companhia Sênior
A turnê em Guarapuava marcou o encerramento da primeira fase da circulação da G2 Cia de Dança pelo Paraná em 2026. O grupo já havia se apresentado em Maringá e Campo Mourão, e tem planos de continuar sua agenda em outras cidades do estado. O projeto, inspirado em uma companhia holandesa de bailarinos masters, foi concebido com o objetivo de explorar novas estéticas na dança contemporânea, valorizando a liberdade criativa e a maturidade artística de seus integrantes.
O elenco atual da G2 Cia de Dança é composto por nove bailarinos experientes, que compartilham o palco com artistas convidados. A consistência do trabalho e a qualidade das performances têm solidificado a companhia como um polo de experimentação e inovação no cenário da dança. A celebração de 25 anos de atividade reforça a relevância de espaços dedicados à valorização da arte produzida por artistas seniores, promovendo a longevidade e a continuidade de suas carreiras.






