Escolas quilombolas valorizam raízes e comunidades

🕓 Última atualização em: 19/03/2026 às 08:13

A educação quilombola no Paraná tem se consolidado como um pilar fundamental para a valorização da identidade e o fortalecimento das comunidades tradicionais. Duas instituições de ensino estaduais, o Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos e o Colégio Estadual Quilombola Maria Joana Ferreira, exemplificam esse compromisso, assegurando que o acesso ao conhecimento esteja intrinsecamente ligado ao pertencimento e à realidade local.

Estas escolas, inseridas em territórios historicamente marcados por desafios de infraestrutura e acesso, transformam-se em centros de referência cultural e social. A proposta pedagógica, desenvolvida em estreita colaboração com as comunidades, busca integrar o currículo formal aos saberes ancestrais, promovendo um aprendizado com sentido e impacto social.

O Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos, por exemplo, localizado em Adrianópolis, na comunidade João Surá, atende cerca de 24 estudantes. Sua existência é fruto de uma mobilização histórica da comunidade, que há anos demandava a ampliação do acesso à educação de qualidade em sua região. Antes da criação da unidade, os jovens precisavam percorrer longas distâncias, muitas vezes por estradas de terra precárias, para dar continuidade aos seus estudos, o que resultava em evasão e dificuldades de acesso.

A implantação oficial da escola, em dezembro de 2008, marcou um ponto de virada, com o início das aulas em 2009. A unidade hoje conta com 12 professores e quatro servidores, e um sistema de transporte escolar adaptado para as condições rurais, garantindo que os 20 alunos atendidos cheguem às salas de aula com segurança.

Alimentação e Cultura: Uma Conexão Essencial

Além do foco pedagógico, as políticas de alimentação escolar desempenham um papel crucial na permanência e no bem-estar dos estudantes quilombolas. As duas escolas receberam, em 2025, cerca de 16 toneladas de alimentos, com um compromisso renovado em 2026, já com mais de 2 toneladas destinadas. Estes recursos somam aproximadamente 1500 servimentos diários.

O cardápio é cuidadosamente elaborado para respeitar e incorporar os hábitos alimentares tradicionais das comunidades. Ingredientes como a banha de porco, tradicionalmente utilizada na culinária local, são integrados às refeições, assim como produtos da agricultura familiar quilombola, como frutas, verduras e tubérculos cultivados nas próprias comunidades. Essa iniciativa não apenas garante a segurança alimentar e nutricional, mas também atua como um veículo para a preservação e valorização da cultura quilombola no cotidiano escolar.

A diretora-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar), Eliane Teruel Carmona, ressalta que a alimentação escolar no Paraná é vista como parte integrante do processo educativo. “Respeitar a cultura alimentar das comunidades também é uma forma de promover educação e garantir uma nutrição adequada, que contribui diretamente para a aprendizagem e para o futuro dos estudantes”, afirma.

A Escola como Espaço de Pertencimento e Liderança

A gestão do Colégio Estadual Quilombola Diogo Ramos tem um marco importante: desde 2021, a unidade é liderada por Cassiane Aparecida de Matos, a primeira diretora quilombola da instituição. Sua trajetória, iniciada como secretária e professora, reflete o protagonismo da própria comunidade na condução de suas políticas educacionais. Indicada pela comunidade, ela personifica a articulação entre a liderança local e a gestão pública.

O planejamento pedagógico é um processo colaborativo, onde moradores, lideranças e representantes da comunidade participam ativamente de reuniões para definir prioridades e alinhar as ações escolares com as especificidades do território. Datas simbólicas, celebrações e momentos ligados à ancestralidade quilombola são incorporados ao calendário letivo, fortalecendo a conexão entre a escola e a história viva da comunidade.

Ademais, o colégio transcende sua função estritamente educacional, servindo como um espaço de referência para a comunidade. A estrutura da escola é frequentemente utilizada para reuniões comunitárias, atividades culturais e acesso a equipamentos, funcionando como um ponto de encontro e desenvolvimento para todos os moradores. Essa integração demonstra como a educação pública, quando articulada com a realidade local, pode ser um poderoso motor de fortalecimento identitário e desenvolvimento territorial.

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