As recentes ondas de calor que assolaram o estado do Paraná expuseram a fragilidade da segurança hídrica em diversas municipalidades. O aumento drástico nas temperaturas elevou o consumo de água tratada a patamares preocupantes, demandando um alerta conjunto entre poder público e sociedade civil para a preservação deste recurso essencial.
Em cidades como Capanema, onde termômetros registraram picos de 38,1°C, e Loanda, com máximas de 35,7°C, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) observou uma elevação significativa na demanda. Essa conjuntura reforça a urgência de discussões sobre o uso consciente da água.
O diretor-presidente da Sanepar, Wilson Bley, enfatiza que, apesar dos investimentos contínuos em infraestrutura, como a expansão de reservatórios e redes de distribuição, a garantia do abastecimento não é responsabilidade exclusiva da companhia. Trata-se de um esforço coletivo.
Apesar de previsões indicarem temperaturas ligeiramente mais amenas para o feriado de Páscoa, com máximas em torno de 33°C em Capanema, o período de chuvas irregulares agrava o cenário. Essa instabilidade climática impacta diretamente os padrões de consumo e a disponibilidade hídrica.
Em Toledo, na região Oeste, a Sanepar opera diariamente para fornecer cerca de 34 milhões de litros de água, atendendo mais de 60 mil imóveis. Já em Cascavel, o volume diário ultrapassa os 90 milhões de litros, demonstrando a escala dos desafios de abastecimento em centros urbanos.
O desafio da gestão hídrica em tempos de crise climática
A gestão da água em um cenário de temperaturas extremas e padrões de chuva alterados exige uma visão multifacetada. As companhias de saneamento operam 24 horas por dia, monitorando níveis de reservatórios e mantendo a infraestrutura crítica, que inclui centenas de milhares de quilômetros de tubulações e milhões de ligações ativas.
A complexidade do sistema abrange 168 estações de tratamento de água, 1.219 poços e uma vasta rede de bombeamento, evidenciando a magnitude dos recursos mobilizados para assegurar o fornecimento contínuo. Contudo, a capacidade operacional, por maior que seja, encontra limites diante da demanda crescente e do uso irracional.
A escassez hídrica, ou o risco iminente dela, não é mais um cenário distante, mas uma realidade tangível que demanda ações imediatas. O foco precisa se deslocar da simples oferta para a gestão da demanda, promovendo uma mudança cultural profunda.
Um dos principais vilões identificados é o uso recreativo de piscinas, especialmente as infláveis. A prática de renovar a água diariamente representa um desperdício monumental. Segundo estimativas, o descarte de água de uma única piscina de 5 mil litros, trocada duas vezes em um fim de semana, seria suficiente para suprir o consumo de uma família de quatro pessoas por duas semanas.
Para mitigar esse impacto, recomenda-se cobrir piscinas e utilizar produtos de tratamento para prolongar a vida útil da água. Piscinas fixas demandam manutenção especializada e constante para garantir sua durabilidade e a eficiência no uso da água.
A urgência de uma mudança comportamental
Além do cuidado com o lazer, a Sanepar apela para a substituição de hábitos cotidianos. O uso de mangueiras para limpeza de calçadas, carros e a rega de jardins é um fator significativo de desperdício. A recomendação é o uso de baldes e a priorização de água de reúso ou métodos de controle que evitem o consumo excessivo.
A conscientização sobre o valor da água deve transcender as situações de crise. Iniciativas educativas e políticas públicas que incentivem a economia hídrica são fundamentais para a construção de uma sociedade mais resiliente e sustentável. A longo prazo, a segurança hídrica depende não apenas da capacidade técnica, mas da adoção de práticas responsáveis por parte de cada indivíduo.






