Balé Piracema Encanta no Festival de Curitiba

🕓 Última atualização em: 19/03/2026 às 08:57

A força da natureza, em seu ciclo perpétuo de renovação e resistência, serve de inspiração para uma obra de dança que celebra a resiliência e o impulso criativo. O fenômeno da piracema, a jornada árdua dos peixes que ascendem contra a correnteza em busca do local de reprodução, é transposto para o palco, simbolizando a persistência e a inovação em um contexto artístico.

Este balé, que estreou em 2025, representa uma exploração profunda da brasilidade, canalizada através de uma linguagem coreográfica que busca o universal. A concepção da obra reflete um processo criativo desafiador, onde dois coreógrafos optaram por desenvolver suas visões de forma independente, para então fundir suas criações em um todo coeso. Essa divisão metodológica permitiu a exploração de diferentes abordagens, culminando em uma experiência artística enriquecedora para os envolvidos e para o público.

A colaboração entre os coreógrafos destacou uma dinâmica de complementaridade. Um dos criadores, com vasta experiência e profundo conhecimento da linguagem da companhia, trabalhou lado a lado com uma nova força emergente, que trouxe consigo uma perspectiva internacional e inovadora. Essa junção de saberes e vivências foi fundamental para moldar a estética da obra, transitando entre o familiar e o surpreendente.

O resultado é uma peça que dialoga diretamente com a trilha sonora, concebida por uma compositora de renome. A música, estruturada em três movimentos distintos, evoca a evolução de ambientes, iniciando em um estado primitivo e tribal, transitando por sonoridades sinfônicas e clássicas, e culminando em uma atmosfera eletrônica e contemporânea. Essa progressão musical espelha a narrativa visual e espacial da coreografia.

Reutilização de Materiais e Simbolismo

A cenografia da obra emprega um recurso visual inesperado e de grande impacto: o uso de 82 mil tampas de latas de sardinha. Este material, coletado e reaproveitado, cobre tanto o fundo quanto as laterais do palco, criando uma textura única que remete visualmente às formações de cardumes observadas durante a piracema. A escolha reflete uma consciência sobre a sustentabilidade e a capacidade de transformar elementos cotidianos em arte expressiva.

Os figurinos também são fruto de uma colaboração inédita com designers de moda, que trouxeram sua expertise para o universo da dança. A dupla de irmãos, um artista-estilista e um arquiteto, explorou novas formas e silhuetas, complementando a visão coreográfica e cenográfica com uma estética arrojada e original, alinhada à temática de movimento e transformação.

A obra se conecta a um repertório anterior da companhia, apresentando também um espetáculo de 1997. Este balé revisitado é descrito como a criação “mais brasileira e regional” de um dos coreógrafos. Suas inspirações remontam aos cantos de trabalho e devoção, explorando ritmos como o baião e utilizando elementos de dança popular, como o jogo de cintura e a marcação de pé. A cenografia deste espetáculo inclui painéis com ex-votos, remetendo a elementos da religiosidade popular do interior.

A apresentação conjunta destes dois espetáculos oferece ao público uma visão abrangente da evolução e da diversidade criativa da companhia, contrastando abordagens contemporâneas com a exploração de raízes culturais profundas. A iniciativa faz parte de um importante festival de artes, que promove a cultura e o intercâmbio artístico em âmbito nacional, contando com o patrocínio de diversas entidades públicas e privadas, e o apoio do Ministério da Cultura.

O Ciclo da Vida e a Expressão Artística

A metáfora da piracema transcende a mera representação de um fenômeno natural. Ela se torna um veículo para discutir a necessidade intrínseca de criação e renovação, tanto no âmbito da vida quanto no da arte. A jornada individual dos peixes ecoa a busca incessante do artista por novas formas de expressão e pela superação de limites, mesmo diante de adversidades.

Esta abordagem artística, que se vale de simbolismos poderosos e processos criativos inovadores, convida à reflexão sobre a capacidade humana de adaptação e transformação. Ao transpor a força da natureza para o palco, a dança não apenas entretém, mas também inspira, lembrando-nos da importância de persistir em nossos próprios ciclos de crescimento e reinvenção.

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