A resiliência do sistema de saúde pública diante de eventos climáticos extremos tem sido um foco crescente de atenção. No Paraná, após um devastador tornado atingir o município de Rio Bonito do Iguaçu em novembro de 2025, uma série de análises e planejamentos foram desencadeados para aprimorar a capacidade de resposta a futuras catástrofes.
A tragédia, caracterizada por ventos de até 250 km/h, causou destruição generalizada, impactando severamente a infraestrutura e a vida da população local. Centenas de pessoas necessitaram de atendimento médico e milhares foram afetadas diretamente pelos danos em suas residências e bens.
A mobilização inicial envolveu equipes da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), Samu, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, que agiram prontamente para prestar assistência às vítimas e dar suporte às unidades de saúde da região.
Este evento recente serviu como um catalisador para a revisão e o fortalecimento de protocolos de emergência. A interação entre diferentes esferas de gestão, desde o nível municipal até o federal, é crucial para uma resposta coordenada e eficaz.
O Processo de Avaliação Pós-Evento: Lições para o Futuro
Uma oficina de Avaliação Pós-Evento (APE) foi realizada em Curitiba, reunindo gestores e especialistas para dissecar a resposta à emergência. O objetivo central foi identificar os sucessos e as falhas no atendimento às vítimas e na organização da saúde pública após o desastre natural.
A iniciativa buscou não apenas analisar as ações retrospectivamente, mas também traçar um caminho para aprimorar o Plano Estadual de Preparação, Vigilância e Resposta às Emergências em Saúde, com especial atenção a desastres de origem hidrometeorológica.
A discussão abrangeu desde a criação de Centros de Operações em Emergência em Saúde Pública até a logística de suprimentos e o encaminhamento de pacientes. A troca de experiências entre profissionais que estiveram na linha de frente do atendimento ofereceu insights valiosos.
O secretário de Estado da Saúde, Beto Preto, destacou a importância de sistematizar o aprendizado obtido. Ele enfatizou que a preparação contínua é a chave para lidar com a imprevisibilidade dos eventos climáticos extremos, que, segundo ele, infelizmente se tornarão mais frequentes.
A análise crítica das ações tomadas permite refinar os protocolos existentes e desenvolver novas diretrizes. A meta é garantir que o sistema de saúde esteja sempre um passo à frente, com planos de ação claros e acionáveis para responder a situações de crise com agilidade e eficiência.
Daniel Cecchin, representante do Programa Nacional de Vigilância em Saúde dos Riscos Associados aos Desastres (Vigidesastre), ressaltou a recorrência de fenômenos como tornados na região. Ele alertou para a necessidade de protocolos unificados e legislações robustas para nortear as ações em futuros eventos.
Para a diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Sesa, Maria Goretti David Lopes, a avaliação representa um ciclo de aprimoramento contínuo. “Sempre temos que aprender com as experiências que vivemos, para acertar mais no futuro”, afirmou.
A atuação do Ministério da Saúde (MS) em cenários de desastre é de apoio complementar. Edenilo Baltazar Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do MS, explicou que a cooperação com o Estado é fundamental para fortalecer a capacidade de resposta dos municípios, que são os principais protagonistas na assistência direta à população afetada.
A troca de recursos e expertise entre as diferentes esferas de governo foi decisiva. A Sesa, por exemplo, solicitou e obteve do Ministério da Saúde dois “kits calamidade”, contendo uma tonelada de medicamentos essenciais, além de enviar centenas de milhares de itens de saúde para a região afetada.
A Força Nacional do SUS também foi mobilizada para reforçar o atendimento e auxiliar na organização da assistência nos primeiros dias após o tornado. A secretária de Saúde de Rio Bonito do Iguaçu, Elisabete Silvestre, relatou a severidade do impacto na cidade e a importância desse processo avaliativo para identificar pontos de melhoria.
Prevenção e Capacitação: Um Investimento Contínuo
A experiência em Rio Bonito do Iguaçu evidenciou a necessidade de investimentos contínuos em prevenção e capacitação de equipes de saúde. A construção de uma cultura de preparação para desastres é um processo que exige dedicação e recursos constantes.
O desenvolvimento de planos de contingência detalhados, a realização de simulações e treinamentos periódicos, e a manutenção de estoques estratégicos de medicamentos e suprimentos são medidas indispensáveis. Além disso, a integração de sistemas de alerta precoce e a comunicação eficaz entre os órgãos de defesa civil e as secretarias de saúde são cruciais.
A vigilância epidemiológica ativa e o monitoramento da saúde da população após eventos adversos também se configuram como pilares para mitigar consequências a longo prazo. O objetivo final é garantir que o sistema de saúde pública não apenas reaja a emergências, mas que também esteja preparado para antecipar e minimizar seus impactos, protegendo a vida e o bem-estar dos cidadãos.






