A escassez hídrica e a qualidade da água destinada ao consumo humano representam desafios crescentes para a gestão pública no Paraná. Em resposta a essa realidade, o estado tem intensificado ações integradas para a preservação e o manejo sustentável de seus mananciais, com o objetivo de garantir o abastecimento seguro para a população.
O Programa Água Segura, uma iniciativa abrangente e de caráter estadual, articula diferentes órgãos e setores da sociedade civil em prol de um objetivo comum: a segurança hídrica. O programa se alinha ao Plano de Segurança da Água (PSA), estabelecendo um marco preventivo na gestão de riscos em toda a cadeia de abastecimento.
A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) lidera esforços que visam a identificação proativa de potenciais ameaças à qualidade da água. Desde a captação nos corpos d’água naturais até a distribuição final aos consumidores, cada etapa é submetida a uma rigorosa avaliação.
Essa abordagem preventiva é crucial, pois a água potável que chega às residências tem sua origem em sistemas naturais. Esses mananciais, muitas vezes, são compartilhados por diversas atividades humanas, como a indústria, a agropecuária e o lazer, evidenciando a necessidade de uma gestão colaborativa e consciente.
A gerente de Recursos Hídricos da Sanepar, Ester Assis Mendes, destaca a importância da participação de todos os usuários de uma bacia hidrográfica para a manutenção da qualidade da água bruta. “A água de boa qualidade no manancial depende da ação de toda a sociedade, para ser usada por essa mesma sociedade”, ressalta.
O Programa Água Segura prevê um alcance significativo, com planos de atuação em 42 microbacias hidrográficas. Até 2028, espera-se que a iniciativa abranja 382 municípios paranaenses, promovendo a implementação de práticas sustentáveis.
Integração de Saberes para a Preservação Hídrica
A articulação entre diferentes instituições estaduais tem sido fundamental para o sucesso do programa. O Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR), o Instituto Água e Terra (IAT), o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) e a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) somam forças com a Sanepar.
O IDR, por exemplo, concentra suas ações na extensão rural, com o desenvolvimento de unidades de referência e modelo. Essas unidades recebem investimentos em tecnologias de produção sustentável, como manejo de dejetos, proteção do solo e recuperação de áreas degradadas. O objetivo é servir como vitrine de boas práticas para produtores e comunidades locais.
O coordenador de Recursos Naturais e Sustentabilidade do IDR, Avner Paes Gomes, explica que essas áreas servem de exemplo para a adoção de tecnologias e práticas ambientais corretas, especialmente em regiões de manancial. A ideia é disseminar conhecimento para agricultores e também para a população em geral, tanto rural quanto urbana.
Essa colaboração multifacetada visa não apenas mitigar riscos, mas também promover a conservação dos recursos hídricos. A proteção e a gestão responsável da água são vistas como responsabilidades compartilhadas por toda a sociedade.
Um exemplo prático da relevância dessas ações pode ser observado na microbacia da Represa de Alagados, que abastece a região de Ponta Grossa. A área, que abrange os municípios de Ponta Grossa, Castro e Carambeí, tem enfrentado desafios relacionados ao uso múltiplo dos recursos e às condições climáticas adversas.
A escassez de chuvas e as altas temperaturas têm contribuído para a proliferação de algas na represa, impactando diretamente a qualidade da água disponível para abastecimento público. A situação é considerada atípica, com uma redução drástica na vazão do manancial.
Raul Marcon, coordenador de Recursos Hídricos da Sanepar, aponta uma comparação alarmante: em fevereiro de 2025, a vazão da represa era de 16 metros cúbicos por segundo, enquanto atualmente está em torno de 2 metros cúbicos por segundo, um valor significativamente inferior à média histórica para este período.
Diante desse cenário, o Programa Água Segura está em fase de diagnóstico para iniciar ações emergenciais em oito microbacias prioritárias, incluindo a de Alagados. A avaliação, fiscalização e a implementação de medidas de controle e proteção de mananciais serão priorizadas nos próximos meses.
Visão de Futuro e Sustentabilidade Hídrica
A estratégia do Programa Água Segura vai além do monitoramento e da resposta a crises hídricas. Ela se fundamenta na construção de uma cultura de manejo sustentável, que envolve o planejamento de longo prazo e a educação ambiental.
A integração de parceiros, como o Simepar, fornece dados essenciais para a previsão hidroclimática, auxiliando na antecipação de períodos de seca ou chuvas intensas. Essa informação permite a tomada de decisões mais assertivas e a implementação de medidas proativas.
A atuação do IAT, com foco na fiscalização dos usos agropecuários, florestais e de solo, garante que as atividades humanas estejam em conformidade com as regulamentações ambientais. Isso minimiza o impacto negativo sobre os corpos d’água e seus ecossistemas.
O convênio firmado, que também inclui a Adapar, reforça o compromisso do estado em proteger um bem comum e essencial para a vida e o desenvolvimento socioeconômico. A segurança hídrica é, portanto, um pilar fundamental para a qualidade de vida dos paranaenses.
A visão de futuro da gestão hídrica no Paraná passa pela consolidação dessas parcerias e pela ampliação do alcance do Programa Água Segura. Ao envolver a sociedade em um processo contínuo de aprendizado e ação, o estado busca assegurar que as futuras gerações também tenham acesso à água de qualidade.
O foco na prevenção, aliado a uma abordagem colaborativa e baseada em evidências científicas, posiciona o Paraná na vanguarda da gestão de recursos hídricos, estabelecendo um modelo replicável para outros contextos regionais.






